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Entrevista ao arqtº Eduardo Souto de Moura - (expresso imobiliário)


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Entrevista ao arqtº Eduardo Souto de Moura - (expresso imobiliário)
Há a ideia em Portugal que o arquitecto é o inimigo

Faz parte do selecto grupo de arquitectos de referência em Portugal. Eduardo Souto de Moura gosta de um bom desafio arquitectónico, é perfeccionista, ou, como gosta de dizer, é “maníaco pelos pormenores” e admite não gostar de visitar os seus projectos.


TEXTO DE MARISA ANTUNES



O metro, o estádio, a participação em projectos como o Bom Sucesso resort ou a Vila Utopia, os museus, são alguns dos seus projectos. Diria que a diversidade é uma das suas imagens de marca?


Nem por isso, só agora é que começo a ter programas diferentes. Até há pouco tempo eu era o arquitecto que fazia casas, até que felizmente ganhei o concurso do metro do Porto e também o estádio de Braga. Aí, as pessoas perceberam que era capaz de fazer outras coisas além das casas. Mas ainda houve um período grande quando fiz a pousada do Bouro, o museu dos transportes na Alfândega do Porto, em que também acharam que eu era um tipo do restauro e do património… Mas eu não gosto de rótulos… Felizmente agora tenho uma actividade diversificada que gosto imenso, até porque no fundo, é uma questão só de escalas… Os programas são os mesmos…


Mas a diversidade é algo que o motiva… Até porque tem tido também algumas incursões na área do «design».


Sem dúvida… Motiva-me muito fazer algo que nunca tinha feito… Essa procura… Por exemplo, agora estou a fazer um relógio e antes já tinha feito uma caneta e pus-me a pensar em coisas que antes nem pensava. Se é leve de mais, se é pequena, se tem carga suficiente para que não deixe de escrever a meio da reunião. Tudo isso tem piada. E depois é algo que pode realizar-se a curto prazo, o que é muito confortável. Porque a arquitectura demora muito tempo e é cansativa. São anos e anos. No metro do Porto, que foi um processo exemplar em tempo, nesse processo
que durou 17 anos, morreram três arquitectos que já não viram algo que foi criado.


E como funciona o seu processo criativo? Tem a ver com momentos de inspiração?


Tem a ver com a vontade de resolver um problema. Quando estou a desenhar é porque me pedem para resolver um problema. Eu não invento nada. Como nos caixilhos «slimslide», por exemplo. Os caixilhos que já existiam no mercado ou eram muito caros, ou muito baratos e não tinham qualidade. E eu queria uma série que era muito cara mas achava que era preciso uma alternativa e pensei que poderia ser feito de outra maneira e a metade do preço. São respostas que é preciso dar. Aquela ideia da imaginação não existe. Existe sim aquela vontade de fazer uns desenhos aos fins-de-semana ou no avião, mais até como pintura, como hóbi… Imaginação do artista, isso não…


Dos vários projectos que tem entre mãos, quais são aqueles mais destacáveis?


O espaço Miguel Torga está um bocado entravado com problemas burocráticos, mas é um projecto que eu gostava muito de fazer, não só pelo Miguel Torga mas pelo tipo de material que vamos usar e com que nunca trabalhei, que são barras de ardósia. Além deste, estou interessado numa coisa que acho que nunca se fez em Portugal e que tem a ver com um convento em Tavira, o convento das Bernardas… Existe muito esta imagem em Portugal que um convento é património e tem de ser um espaço cultural ou pousada. É uma espécie de fatalidade. Em Itália, que existe património em todo o lado e não pode haver tantas pousadas e tantos centros culturais, as pessoas vivem no património, o que é agradável. Fartei-me de ir a casas de amigos meus e chegar à sala de jantar e ver aqueles tectos pintados… Mas então, propus transformar o convento das Bernardas em habitação, que era uma coisa que havia no século XIX quando as Ordens foram extintas e os conventos foram vendidos em hasta pública. O médico da terra, o juiz, iam viver para o convento... Até na minha família isso aconteceu. A minha mãe chegou a viver numa das alas do convento do Bouro. O convento das Bernardas está num sítio lindíssimo, em cima das salinas e eu propus fazer nesse espaço alguns triplexes. É um projecto aliciante. Depois, tenho uma outra proposta muito urbana, num quarteirão do Campo Pequeno onde vou fazer vários prédios com uma praça e também no Porto apareceram agora alguns projectos de recuperação porque o Porto estava parado e parece que agora há algum ânimo, em especial vindo de investidores espanhóis.


Diria que se faz arquitectura de qualidade em Portugal?


Eu para ser sincero, acho que o panorama é negro, mas quando comparado com outros países não digo que se faça arquitectura de qualidade só que em proporção aos nove milhões de pessoas que temos, a qualidade média dos arquitectos portugueses é boa. Não vou falar da minha geração nem da anterior… Falar do Siza ou do Távora, o Teotónio, são nomes confirmados… Mas se formos ver a geração dos 40 anos, eu posso dizer-lhe seis arquitectos portugueses muito bons, que saem em revistas estrangeiras, que são convidados para exposições… Mas não consigo arranjar seis arquitectos franceses ou italianos… Italianos nem um, quanto mais seis. Em Espanha já existe uma qualidade média alta. E começa a falar-se agora se a arquitectura portuguesa é algo para exportar e nos arquitectos portugueses que trabalham no estrangeiro, enfim… Já se percebeu que é algo que não há vergonha em mostrar. Lembro-me da inauguração da Trienal de Milão, aqui há alguns anos, o então presidente Jorge Sampaio pediu-me para eu ir. No fim, perante os jornalistas, ele disse que era a primeira vez, como presidente da República, que sentia orgulho em estar num sítio em que existe qualquer coisa de português. E estava comovido, o que é quase normal nele, a contar que as pessoas ficaram admiradas e lhe deram os parabéns… Eu acho que, em relação a outros campos, a arquitectura portuguesa não deixa ficar mal o nome de Portugal.


Mas como se justifica que os arquitectos sejam reconhecidos lá fora e apenas uma meia dúzia são conhecidos pela maioria dos portugueses?


Eu acho que isso está a mudar. Os promotores já começaram a perceber que custa tanto fazer um projecto com um arquitecto bom, como com um arquitecto mau. Primeiro porque os arquitectos bons levam tanto como os arquitectos maus, porque há uma tabela e há uma vertigem em Portugal para o desconto. Até o Estado pede desconto. Eu lembro-me que fiz o Palácio da Justiça para a Maia e eles perguntaram-me quanto é que eu levava. Eu disse que levava a tabela do Ministério das Obras Públicas e eles responderam-me “nem pensar”. Que era caríssimo! Há esta coisa portuguesa de pedir o desconto. Eu não conheço nenhum arquitecto que não faça desconto. O Siza, por exemplo… Lembro-me perfeitamente quando fizemos a avenida dos Aliados, o metro do Porto foi pedir ao Siza se fazia 10% de desconto. Enfim… Mas começam a aparecer um conjunto de promotores que estão a ir buscar os bons arquitectos. Que eu saiba está tudo cheio de trabalho. Não vejo assim arquitectos que eu gosto, com pouco por fazer. E depois há a questão das modas que não é só nos sapatos, é também na arquitectura. Vão buscar aqueles três e agora aqueles quatro que são uma espécie de imagem de marca dos empreendimentos. Tem graça é que a imagem de marca não corresponde ao resto. Quando se compra uns sapatos Fendi paga-se o dobro, mas neste caso não.


Que avaliação faz da capital, em termos arquitectónicos?


Lisboa é uma cidade lindíssima. Eu sou do Porto mas sinto-me muito bem em Lisboa. Lisboa teve alguns atrasos burocráticos mas se calhar até foi uma vantagem porque não se destruiu uma série de coisas. Mas neste momento há grandes investimentos, há muitos estrangeiros a investir, mas há um desgaste enorme, as pessoas esperam e esperam. Existe o medo dos políticos, que nunca aprovam, dizem apenas ‘nim’… E os promotores desistem um pouco. É o contrário de Espanha. Só para dar um exemplo: eu fiz nos arredores de Barcelona, em três anos, o plano e o projecto das torres, decorreu o licenciamento, o projecto foi vendido, apareceu um novo comprador e neste momento está em construção. Quando eu estava a trabalhar nesse projecto, o presidente da câmara ligou-me e pediu para ver a maquete. Se for em Portugal, para conseguir uma reunião com o presidente da câmara demoro três meses. Há a ideia em Portugal que o arquitecto é o inimigo, é o tipo que vai dar cabo disto tudo… Quando o arquitecto chega à câmara até sente que está a mais… Depois, muitas vezes as pessoas reagem quando há coisas boas, porque um edifício com qualidade põe em causa o resto. Muita gente não quer, não só os políticos, mas também os nossos colegas… Porque um prédio feio passa despercebido agora um prédio que é autónomo e que inverte as regras chama a atenção para muitas coisas. E isso às vezes não convém…


Comentou numa entrevista que não fazia sentido falar-se em arquitectura sustentável…


Não há boa arquitectura que não seja sustentável. É como dizer que a arquitectura tem de ter uma boa estrutura senão cai. É evidente que cai. Eu conheço alguns políticos que dizem “eu sou muito sério e sou um democrata”. Mas não têm que dizer. Porque se é político deve ser sério e tem de ser democrático pois tem de respeitar as regras do jogo, uma vez que foi eleito dessa maneira. Por isso, não faz sentido quando dizem que há uma arquitectura que gasta pouca energia pois se gasta muita, é contranatura. Se num sítio no meio do deserto fizerem um prédio todo em vidro, isso não é sustentável e as pessoas até reagem negativamente pois não é normal. A boa arquitectura é aquela que é adequada às circunstâncias. Em várias épocas, a arquitectura e as outras ciências, tentam encontrar outras disciplinas para a complementarem. Por exemplo, houve uma fase da arquitectura inteligente, da robótica… Mas ter um edifício inteligente é a coisa mais estúpida do mundo, porque um edifício bonito é inteligente por ele próprio… Agora apareceu esta coisa da sustentabilidade… Acho pretensioso dizer-se que um edifício é sustentável… Acho que é o mínimo que se pede…


O que sente quando entra numa obra sua, monumental como o estádio municipal de Braga?

Sinto muitas coisas durante a construção, mas quando acaba a obra, nunca mais lá entro. Por acaso fui obrigado a voltar lá quando ganhei o prémio Secil, pois foram lá pôr a placa. Mas não é uma coisa que me atraia. Eu sofro, eu trabalho bastante, entrego-me e odeio que as coisas não fiquem bem, é um bocado por orgulho pessoal. Depois, quando acabo, não quero ver aquela memória panorâmica a passar-me à frente, com todos os problemas que tive… E como sou bastante optimista e estou muito empenhado nos projectos que estou a fazer, o disco duro não aguenta a informação anterior mais a actual… E às vezes fico triste quando vejo as obras mal tratadas… O que me interessa ver agora o estádio quando me disseram que foi comprado por uma companhia de seguros que encheu as paredes com cartazes… Por isso não vi nem quero ver para não ter desgostos… É muito perfeccionista? Tento ser, mas eu não posso dizer isso… Mas sim, sou um bocado maníaco dos pormenores. Não é que os pormenores salvem as obras, mas os pormenores são muito importantes. Eu não consigo ler um texto sem pontos nem vírgulas. É um problema de educação. Começa-me a faltar o ar. E também não gosto de ver edifícios que não tenham lá os detalhes imprescindíveis.


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