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Nadir Afonso - o mestre esquecido...


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Nadir Afonso nasceu em Chaves em 1920.
Diplomou-se em Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto.
Em 1946, estuda pintura na École des Beaux-Arts em Paris, e obtém por intermédio de Portinari uma bolsa de estudo do governo francês e até 1948 e em 1951 colaborador do arquitecto Le Corbusier e serviu-se algum tempo do atelier Fernand Léger.
De 1952 a 1954, trabalha no Brasil com o arquitecto Oscar Niemeyer.
Nesse ano, regressa a Paris, retoma contacto com os artistas orientados na procura da arte cinética, desenvolvendo os estudos sobre pintura que denomina "Espacillimité".
Na vanguarda da arte mundial expõe em 1958 no Salon des Réalités Nouvelles "espacillimités" animado de movimento.
Em 1965, Nadir Afonso abandona definitivamente a arquitectura; consciente da sua inadaptação social, refugia-se pouco a pouco num grande isolamento e acentua o rumo da sua vida exclusivamente dedicado à criação da sua obra.

em anexo:.3pics_ pinturas e 3pics_ da sua "+conhecida obra arquitectonica"_a panificadora de chaves

disfrutem,

abraço
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concentratZen.dk Nadir Afonso deverá ser aquele caso tipico de reconhecimento do seu valor quando falecer :)
De qualquer das formas a Arquitectura e Vida nº 67 contem uma entrevista a Nadir Afonso! Passem por lá os olhos!

PS: Alterei o titulo do tópico para uma melhor pesquisa! Espero que não te importes :D
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O Nadir é acima de tudo um grande artista

e um grande homem...com histórias interminaveis para contar

...tive a grande sorte de passar algum tempo da minha vida no seu estudio em chaves, pois o meu pai trabalhava ai como colaborador...eu era bastante miudo ms o suficiente para me lembrar de muito e para ter percebido que estava perante um homem singular(para nao falar do artista)...a honestidade é interminavel...a frontalidade é pura e tolerante...alias terá ele sofrido muito com algumas das suas carateristicas, principalmente dentro do panorama artistico portugues...

enfim...o que me lembro é dum anexo no res-do-chao de sua casa, era o seu estudio...cheirava a oleos, acrilicos..terbentinas..etc...panos sujos tombados no chao...aquela luz que penetrava as telas...foi ai que um dia decidi que qeria ter um estudio assim um dia...:)
rasgando por ali dentro corre um homem de barba, mao no queixo, pensativo, dinamico...caneta na mao...guardanapos nos bolsos da sua camisa...(nadir afonso faz os esboços em guardanapos...são por assim dizer o seu diario grafico) evoca empenho...apela à inspiraçao...ao trabalho...à visão além "eu", muito + que "eu" muito dentro do "eu"...deambula , filosofa...ouve-se"mestre, qer aplicar aqui tb as complementares?..."este ri despeja "que estou eu a tentar complementar?"

os seus ajudantes compartilham os seus sonhos, têm um respeito interminavel por este..e no entanto ele é o mestre que se senta no centro do estudio e conta historias...que toma cafe com estes...que é tu cá tu lá...informal, sempre justo, amigavel, concentrado...a certa altura isolado...ms sempre grande e digno...por isso mesmo ele é o mestre...

ainda a pouco tempo estive com ele...(pouco tempo como qem diz...faz talvez 2 anos)
andava ele a passear no centro de chaves...passeia como se nada fosse com ele,
passeia como se a vida esteja a começar...deambula na cidade com um sorriso enorme como qem deambula com o olhar numa das suas telas...

desculpem ter-me alongado tanto...dei por mim a flutuar sobre recordaçoes...:D

enfim...quando e se me lembrar + heide contar...ha historias interessantes sobre o nadir afonso...contadas por este...

no entanto a ideia do topico era tentar perceber a que nivel este é e foi reconhecido, e também dar uma ideia da sua obra(qer a nivel de pintura qer arquitectura).
e também ja agora saber quantos arquitectos e estudantes de arquitectura conheciam a obra de nadir afonso.

abraço...logo que puder faço upgrade com obras...
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monumento do infante em Sagres, 1955

História do Projecto

Nos fins do Outono de 1954 Nadir Afonso visita a sua família e recebe em Chaves uma carta do seu amigo escultor Arlindo Rocha que em má hora o convence a concorrer ao projecto do Monumento ao Infante a erigir em Sagres. Após muitos meses de trabalho, de canseiras e despesas contraídas na elaboração do plano, Nadir cruza-se acidentalmente na Rua Santo Ildefonso do Porto, com o arquitecto João Andresen que, num gesto de amizade o aconselha a desistir do concurso! Segundo dizia «o prémio já estava atribuído». «Como pode ser isso se o prazo de entrega dos trabalhos ainda não terminou!» inquiriu Nadir. «Eu fui oficialmente convidado a elaborar o projecto e é a mim que ele será atribuído», respondeu Andresen. E assim foi!
Mais tarde teve conhecimento que o arquitecto Rogério de Azevedo, membro do júri, contou que o projecto de Nadir Afonso e mais sete foram seleccionados para a prova final; Salazar vendo que tinham sido seleccionados sete arquitectos conhecidos e um tal Cristiano da Silva muito seu amigo, tinha sido desprezado, mandou retirar o desconhecido que era Nadir.
Mais de uma centena de concorrentes sacrificados, inclusive o «oficialmente premiado» pois não havia – pelo que se viu e recusou de qualidade – a mínima intenção de erigir qualquer monumento em Sagres.
Ali também, não adiantava reclamar contra a injustiça cometida!

Extraído do livro «Da Vida à Obra de Nadir Afonso»
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O que é um Espacillimité?
Espacillimité é um termo criado por Nadir Afonso nos anos 50 que definiam certos trabalhos desenvolvidos na procura da Arte Cinética.

Nadir escreveu:
Normalmente, a primeira intenção artística do homem é a de exprimir aquilo a que chamamos qualidade de evocação, representando ou sugerindo os variados visíveis da natureza. Depois, num desígnio mais evoluído, ele procura já, não expressar a natureza, mas a perfeição da natureza; da procura da primeira, ele passa à procura mais subtil desta segunda qual idade; observando não o objecto, mas as condições apriorísticas que fundam a sua existência, o homem apreende e concebe a perfeição. E é este longo trabalho que, por outro lado, lhe desenvolve a percepção das formas exactas e estáveis da geometria e o conduzem à procura desta terceira e única qual idade universal e omnitemporal: a harmonia. Da representação do objecto físico – rosto, árvore, animal – à repre­sentação do objecto geométrico – círculo, triângulo, quadrado, hesitante, milenário e as formas solicitadas, comprometidas, durante séculos por estes dois pólos: o físico e o geométrico.
Este percurso secular não termina no entanto, nas formas elementares da geometria: ele prossegue nas formas elementares animadas de movimento; na chamada “arte ciné­tica”. A cinética, tal qual nós a concebemos, é a preocupação de articular a forma do espaço ao ritmo do tempo. É um processo de síntese que tem os seus precursores na arte “optica" ou “op" e em certas composições 2animadas" e esculturas "mobiles", se bem que nestas tentativas de estruturação a expressão geométrica e a expressão rítmica colidem mais do que se fundem. As procuras cinéticas deverão ser etapas o­rientadas para novas leis de unidade. A evolução da arte foi dirigida, até aos nossos dias, no sentido das harmonias estáticas das formas; isto não quer dizer que não poderá empreender uma orientação dinâmica - no verdadeiro sentido da pala­vra - integrando as leis rítmicas do tempo, ensaiando articular as harmonias espa­ciais nas harmonias temporais, isto é, tentando animar, mediante um processo técnico cinematográfico, as composições de arte plástica: não teríamos assim unicamente uma imagem, mas uma sucessão de imagens regidas por leis rítmico-geométricas. A verdadeira arte cinética é esta tentativa. Toda a obra cinética cujo movimento das formas é metrisado por uma sensibilidade desenvolvida neste sentido, isto é, por uma sensibilidade geométrica conjugada a uma sensibilidade rítmica, parece-nos ar­tisticamente válida. Enquanto o movimento permanecer arbitrário (em certos ensaios cinéticos as formas deslocam-se ao acaso ou segundo o gosto dos espectadores), nós estaremos em face de manifestações originais sem relação com a realidade especí­fica da arte.
Por volta de 1950, uma primeira tentativa de promover uma Arte Cinética foi diligenciada por um grupo de artistas ligados à Galeria Denise René. Os problemas téc­nicos suscitados e a oposição dos conceitos pessoais então manifestados levou o movimento colectivo a um ponto morto; cada qual entendeu vencer ou melhor, contornar as dificuldades à sua maneira.
As composições "Espacillimité" nasceram desse isolamento sequente. Trata-se sobre­tudo aqui, de respeitar as leis dos espaços e dos ritmos matemáticos. O quadro ci­nético "Espacillimité" foi nesse caminho o nosso primeiro trabalho.
Não escondemos o "impasse" em que os obstáculos colocam a execução prática duma o­bra verdadeiramente cinética a nosso ver a noção rítmica do movimento não pode ser atingida senão pela "sugestão" do movimento, e a "sugestão” técnica do movimento não pode ser dada senão pela cinematografia - nada menos de dezasseis imagens con­troladas por segundo. Deste modo, a hist6ria da arte cinética tem sido acima, de tudo, a história duma procura material e prática capaz de solucionar um problema que é antes e sobretudo de carácter técnico.
Os quadros “Espacillimité" reunidos, revelam mais uma "intenção” (a­penas concretizada no quadro cinético acima reproduzido) do que uma "solução" ou mesmo uma concepção nossa do que possa ser uma “arte de vanguarda"; não deixam contudo de possuir, nesse sentido, uma definição pr6pria e uma significação exem­plar.

Nadir Afonso
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obra estética publicada:.

1958 - La Sensibilité Plastique, Press du Temps Present, Paris
1970 - Les Mecanismes de la CréationArtistique, Editions du Griffon, Neuchatel, Suíça
1974 - Aesthetic Synthesis, Ed- Alvarez-Colab- Selected Artists Galleries de Nova Iorque
1983 - Le Sens de l´Art, Imprensa Nacional
1986 - Monografia Nadir Afonso, Bertrand,Lisboa
1990 - Da Vida à Obra de Nadir Afonso, Bertrand
1994 - Monografia Nadir Afonso, Bial, Porto-
1998 - Monografia Nadir Afonso, Livros Horizonte
1999 - O Sentido da Arte, Livros Horizonte
2000 - Universo e o Pensamento, Livros Horizonte
2002 - Nadir Afonso - Sobre a vida e sobre a obra de Van Gogh, Chaves Ferreira Publicações, Lisboa
2003 - O Fascínio das cidades, Câmara Municipal de Cascais
2003 - Da intuição artística ao raciocínio estético, Chaves Ferreira Publicações, Lisboa

fonte:. http://pt.wikipedia.org/wiki/Nadir_Afonso

abraço
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http://img509.imageshack.us/img509/9676/padaria1dj2.jpg http://img297.imageshack.us/img297/6420/padaria2ri8.jpg http://img509.imageshack.us/img509/4448/padaria3ya5.jpg http://img58.imageshack.us/img58/88/padaria5pg3.jpg ...sem palavras...infelizmente como muitas outras obras de valor em portugal,a panificadora de vilareal esta ao abandono...no estado que se pode perceber,se é que se pode perceber...enfim...acontesse muito, demasiado...é pena...

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Um edifício de Nadir Afonso, actualmente “abandonado”, foi uma panificadora de sucesso, que acabou por cair em decadência. O actual proprietário pretende construir um bloco habitacional, mas o projecto entregue na autarquia de Vila Real, não conhece desenvolvimentos.

A Vila Real Panificadora, Lda. nasceu em 1944. Sedeada na rua Alexandre Herculano, começou por ser uma união das várias padarias existentes fora da cidade e rapidamente se tornou numa referência da panificação em Vila Real.

No ano de 1965, Manuel da Costa Azevedo Júnior, residente da cidade do Porto e dono de uma empresa de moagem em Marco de Canaveses, adquiriu a Vila Real Panificadora e algumas pequenas padarias, que tinham surgido. A par do crescimento da Vila Real Panificadora, Lda. formou-se uma outra sociedade constituída por Mário Duro, António Teixeira, Sebastião Eirinhas e Domingos Gaspar. Esta sociedade fundir-se-ia à Vila Real Panificadora, embora contra a vontade de António Teixeira, sustentando a influência da Panificadora no mercado através do conhecimento que estes quatro homens tinham da arte de panificação.

Após a união, em Junho de 65, Manuel da Costa Azevedo Júnior requereu à Câmara Municipal de Vila Real autorização para a construção de um edifício no actual bairro da Auraucária. Deferido o pedido foi apresentado um primeiro projecto assinado por Nadir Afonso.

Após a vistoria a 7 de Outubro de 1966, a obra estava concluída e aprovada pela Câmara Municipal de Vila Real. O custo total da panificadora rondou os dez mil contos, segundo um dos sócios trabalhadores, Mário do Poço Duro.

Actualmente o edifício está totalmente ao abandono, sem qualquer tipo de vedação e protecção. No interior existe todo o tipo de entulho, bem como matérias combustíveis. O actual proprietário, José António Meireles, entregou um projecto na Câmara Municipal de Vila Real, que passa pela construção de um bloco habitacional, sem quaisquer desenvolvimentos visíveis até à data.

O proprietário reconhece o total estado de degradação do imóvel, que assegurou já ter estado vedado. Não está colocada de parte a hipótese de recuperação do edifício, mas espera, para tal, uma resposta da autarquia vila-realense ao projecto acima referido.

António Meireles mostrou-se desagradado com a actual situação, esperando ver desenvolvimentos em breve.
A Câmara Municipal de Vila Real, até ao fecho desta edição, não se pronunciou sobre este assunto predispondo-se a pronunciar na próxima edição.

Texto e fotos de Eduardo Tavares e Frederico Correia

fonte:.noticias de vilareal

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melhor ainda: .por ele mesmo)

Autobiográfia de Nadir Afonso
Nasci em Chaves em 4 de Dezembro de 1920. Meu pai era poeta e chamava-se Artur Maria Afonso e minha mãe Palmira Rodrigues Afonso.
Sou filho segundo, meu nome seria Orlando se, no dia em que meu pai me registara, não tivesse encontrado um cigano que sugeriu chamar-me «Nadir» – «Muito Orlando será ele», disse o cigano.
Aos quatro anos pinto o meu primeiro «quadro»: um círculo vermelho na parede da sala de minha casa, de tal modo era perfeito que ninguém se atreveu a repreender-me. «Tu pintaste a parede Riri?» perguntou minha mãe. «Eu seria capaz de fazer uma roda tão bem feitinha?» respondi. E toda a minha existência se processou sob o signo do ritmo e da precisão geométrica.
Toda a actividade se concentra então na prática da pintura (2º prémio no concurso «Qual é o mais belo trecho da paisagem portuguesa?», 1937); nesse sentido me dirigo à Escola de Belas-Artes do Porto munido de meia folha de papel selado em que pedia a inscrição no curso de pintura.
Porém, aqui, segui o conselho errado do funcionário que me convenceu a inscrever-me em arquitectura. E assim surgiram novas dificuldades e novas desacertos. Eu não desenhava arquitectura; «pintava» arquitectura. Ficou conhecida a história do estirador que o Mestre Carlos Ramos me ofereceu e que devolvi (a mesa foi levada à Escola de Belas-Artes pelos meus próprios braços) quando, coincidente com a oferta, a classificação baixou.
Irredutível ao ensino, era pelo contrário, o contacto, directo com a natureza que me atraía. O Porto, com a sua arquitectura barroca, debruçada sabre o Douro impressiona-me. Percorria a cidade pintando: «Igreja dos Grilos», «Clérigos», «Batalha», «Cais da Ribeira», «Vila Nova de Gaia»...
Estreitando as relações com os meus colegas das Belas-Artes, fiz parte do grupo dos Independentes do Porto expondo em todas as suas exposições até 1946.
A minha obra «A Ribeira» do Porto deu entrada no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa, tinha eu apenas 24 anos. No entanto a longa perseverança da minha obra afirma-se, paradoxalmente, através duma sucessão de desastres.
Em Abril de 1946 então com 25 anos de idade, parti para Paris. Levei algumas das últimas telas feitas em Portugal e que terminaria em França; eram sobretudo óleos do período irisado. Transporte difícil no pós-guerra! Ainda não se tinham restabelecido a ligação de comboios entre a Espanha e a França, atravessei pela via-férrea entre a estação de Irun e de Hendaye com mala, rolo de telas... e a pé. Uma vez em Paris obtive por intermédio de Portinari uma bolsa de estudo do Governo francês. Matriculei-me no curso de pintura da École des Beaux-Arts, habitava no Hotel des Mines no Quartier Latin e frequentava os foyers de estudantes. Pela primeira vez, por assim dizer, tomo contacto com o grande mundo da Arte.
Colaborei com o arquitecto Le Corbusier. Longos anos se passarão divididos entre um trabalho de arquitectura (a bolsa de estudo durara apenas um ano) e um trabalho de pintura. Le Corbusier, conhecendo a minha paixão pela pintura concedeu-me as manhãs livres para pintar (sem me descontar no ordenado). Servi-me algum tempo do atelier de Fernand Léger e comecei, pouco a pouco, a encontrar forma no abstraccionismo geométrico.
Os fundamentos imutáveis da estética revelam-se com mais clareza; o meu conceito das origens, da essência da arte, recebe, na assiduidade do trabalho, novas orientações.
No ano de 1948 defendi tese na cidade do Porto com um projecto executado em Paris sob a orientação de Le Corbusier onde ressaltam afirmações que geram grande polémica: «A arquitectura não é uma arte» é o tema da minha tese. «A arquitectura é uma ciência, uma elaboração de equipas» e como tal, um meio de expressão que não me satisfaz.
Nos princípios de 1949 retirei-me de Paris e passei um ano no meio das minhas pinturas; desenvolvi uma série de antigos estudos inspirados no barroco português que resultaram no meu período barroco a que se seguiu o período egípcio. Mais tarde alguém encontrou influência de Dewasne. É claro que não importa se um Nadir desconhecido seja o influente ou o influenciado.
Em Dezembro de 1951 embarco em Génova para o Rio de Janeiro. Aí comecei um período de colaboração com Óscar Niemeyer; mais de três anos de dupla actividade: a necessária arquitectura e a obcecante pintura. Participei na elaboração do projecto da Exposição Comemorativa do IV Centenário da Cidade de S. Paulo.
Regressei a Paris, retomei o contacto com os artistas orientados na procura cinética e desenvolvi estudos de estética e pintura que chamei «Espacillimité». Fiz parte do grupo da Galeria Denise René, expus alguns dos meus trabalhos juntamente com Vasarely, Mortensen, Herbin, Bloc.
Paris é o grande centro da arte e por isso também acérrimo meio de promoção, de confrontação e de luta. Tudo vi, ouvi e conheci; desde a prevenção de Dewasne: «Aqui cada pintor é um pirata com um punhal entre os dentes!». Compreendo, sim: devíamos participar na vida artística de Paris, mas... não posso; o meu passado vivido «detrás dos montes», a minha educação simples contrária ao jogo social das conveniências, das considerações forçadas e dos seus intteresses subjacentes, me impedem.
Consciente da minha inadaptação social e da minha dificuldade de integração no meio artístico, refugio-me pouco a pouco num grande isolamento; acentuo o rumo da minha vida exclusivamente dedicada à criação duma obra. Desenvolvo estudos sobre a geometria que considero a essência da arte.
Uma primeira publicação – La SensibilitéPlastique– aparece em 1958 em Paris graças ao apoio de Michel Gaüzes, Madame Vaugel e Vasarely.
Na vanguarda da arte mundial expus em 1958 no Salon des Réalités Nouvelles um «Espacillimité» animado de movimento (agora exposto no Museu do Chiado) e realizei em 1959 a minha primeira grande exposição antológica, na Maison des Beaux-Arts de Paris, fruto de difíceis anos de trabalho.
Verifica-se desinteresse em relação às minhas exposições no Porto e em Lisboa. Mas eu não procurava nem a celebridade nem a fortuna. Se fossem esses os meus objectivos há muito, teria já abandonado a minha incessante procura da Arte.
Em 1965 abandono para sempre a arquitectura para me consagrar inteiramente à sua minha obra.
A elaboração e publicação duma estética absorvem-me totalmente. Sucedem-se as viagens entre Chaves e Paris onde me encontro com Roger Garaudy, Vasarely, Gaüzes. Trabalho por indicação de Garaudy em Toulouse com oesteta Pierre Bru com quem revi a forma sintáctica dos meus estudos.
Em 1968 Vasarely escreveu ao editor suíço Marcel Joray uma carta em que lhe faz uma descrição do meu trabalho. Uma vez tomado conhecimento do manuscrito a resposta de Joray é positiva; ela será entusiasta após o conhecimento da obra que o documenta.
Les Mécanismes de la Création Artistique aparecem em público; é a primeira grande monografia duma série que irei perseverantemente elaborando.
Nunca corri, como diz Marcel Joray: «a cuidar dos seus interesses», mas a arte, qual corrente caudalosa, ninguém a pode suster.
Definitivamente isolado a minha existência torna-se menos adversa. Pinto e escrevo num regular e crescente sossego. Exponho em Lisboa, Porto, Paris e Nova Iorque e um pouco por todo o mundo e sem partidos políticos fui condecorado e homenageado.
Publico em 1983, «Le Sens de l’Art», a que se seguem vários outros títulos, monografias e textos estéticos onde destaco: «Da Vida à Obra de Nadir Afonso», «Universo e o Pensamento», «Van Gogh», «O Fascínio das cidades», «Da intuição artística ao raciocínio estético», «As Artes: Erradas Crenças e Falsas Críticas» e tenho quadros espalhados por vários museus mundiais.
Não pretendo ser cientista; no entanto li, escrito por outros, o conteúdo da minha obra «Universo e o Pensamento» de especulação filosófica nas primeiras páginas dos jornais e o plagiador muito cumprimentado; assisti a intelectuais apresentarem ideias minhas sem as respectivas aspas ou referirem o meu nome de autor.
Se uma lição de moralidade pudesse ser entendida nas minhas (e noutras) memórias de artista, talvez fosse finalmente reconhecido por lei o fracasso das instituições culturais. Apoia-se e promove-se, não os verdadeiros criadores mas indivíduos insinuantes, fura-vidas que gravitam à volta das instituições. Tenho consciência que a minha obra é única, original e de dimensão universal, mas reparo que «bons artistas» não são aqueles que possuem uma obra válida mas aqueles que imitam o que de vanguarda se faz lá fora e privam com aqueles que os promovem.
Quatro temas que se conjugam e desenvolvem nos nossos três precedentes estudos e nos quais as teorias físicas da relatividade, as concepções filosóficas de idealistas e de materialistas e as teses biográficas sobre Van Gogh, são repostas em questão. Imodéstia minha? Sou português, transmontano e filho das Terras de Barroso. Aprendi de tradição a ser humilde, a louvar os mestres e a viver até aos oitenta e seis anos na simplicidade que a minha inferior condição sempre me concedeu. Um balanço da minha existência e dos trabalhos a que me devotei ressoa-me subitamente absurdo.
Assim termino o último livro ainda por publicar: «Estou certo que tarde ou cedo serão acareados à evidência do que aqui deixo escrito; e mais uma vez, espero que qualquer credenciado cientista eleve, em seu nome, estes escritos, ao nível dos postulados. Todo o cientista credenciado que tenha mais possibilidades do que o autor, em promover a divulgação da obra, será mais facilmente reconhecido».

Nadir Afonso
- extraido do JL - Jornal das Letras.

abraço

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  • 1 month later...
"O homem volta-se para a geometria como as plantas se voltam para o sol é a mesma necessidade de clareza. Todas as culturas foram iluminadas pela geometria cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta".
Nadir Afonso



Na Galeria do Jornal de Noticias, no PORTO, até 26 de Agosto a exposição "FUTURO" de Nadir Afonso. (entrada gratuita)

Eu já visitei e para quem aprecia o seu trabalho vale a pena ir ver.

Algumas das obras expostas:

http-~~-//i24.photobucket.com/albums/c25/alegna_pt/P7060006_.jpg

http-~~-//i24.photobucket.com/albums/c25/alegna_pt/P7060004_.jpg

http-~~-//i24.photobucket.com/albums/c25/alegna_pt/P7060001_1.jpg

http-~~-//i24.photobucket.com/albums/c25/alegna_pt/P7060001_2.jpg

http-~~-//i24.photobucket.com/albums/c25/alegna_pt/P7060007_.jpg

site NADIR AFONSO: http://www.nadirafonso.pt/
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  • 1 month later...

eu acho que isso dava uma nutritiva e saborosa discussao com um chazinho de limao à frente a aquecer as maos...ms infelizmente hoje nao pode ser...falta de tempo... o sindrome do arquitecto e do estudante de arquitectura...mas prometo que voltarei para essa discussao...ah n esquecendo o chazinho!=) daria também uma bela discussao com o proprio nadir, ja que ele é um falador um conversador nato...no entanto não sei mesmo se ele acredita que a arquitectura é uma ciencia...alias vou corrigir:. n sei se ele qer dizer isso com o tema da sua tese, assim sim. Seria interessante dar uma vista de olhos à tese. Vou desde ja tentar ver como se pode aceder a esta. Se encontar algo partilharei. ate ja... abraço, desde o frio...

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por acaso um cházinho agora até caia bem :)

Indo agora para questão em mãos. Depois de uma pesquisa rápida no google e uma leitura em diagonal...

A passagem pelos ateliês de Le Corbusier (1948-1951) e de Oscar Niemeyer (1952-1954) não foi suficiente para o demover da convicção de que "a arquitectura não é uma arte [...] é uma ciência, uma elaboração de equipas" e um "labirinto de contigências" no qual a arte não pode afirmar-se.


de Fundação Calouste Gulbenkian - Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão
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  • 3 weeks later...

Eu, como qualquer arquitecto, fujo dos arquitectos como o diabo da cruz…mas de quando em quando passo por aqui… Conheci o Nadir no bar da ARVORE, no Porto, no inicio dos anos 80. O homem estava deleitado a dar encima de uma italiana, há época mulher do arq. Ricardo Figueiredo…Quando o Ricardo apareceu Nadir, apercebendo-se da situação não se descompôs. Virou-se para ele e disse - Permita-me que o felicite pela beleza da sua mulher… Mas o que eu queria transmitir é que existe um prédio dos anos 80 na rua António José de Almeida (creio??), antes do Tiro e Sport que é da sua autoria, ou pelo menos assinado por ele… Cumprimentos

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