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“Síndrome Abel Xavier”


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“Síndrome Abel Xavier”

Passou há pouco tempo na RTP 1 um belíssimo documentário sobre a vida de um dos grandes vilões da história bíblica. Louco, assassino, déspota, conhecido pela sua tirania mas também pelas grandes obras que marcaram a História, Herodes foi o obreiro do primeiro grande porto artificial do mundo antigo em Cesareia Palestina, de grandes templos, anfiteatros, arenas e palácios por toda a Judeia.

A excelente produção deste documentário, além de recorrer a reconstituições digitais das obras, ilustra a história deste tirano contando com a participação de uma série de actores que dão vida à narração. No documentário, a propósito das descrição das grandiosas obras que Herodes promoveu no seu reinado, o actor que encarna o papel, aparece por várias vezes sentado a uma mesa rabiscando uns desenhos como se fosse o mestre, o arquitecto que projectava as suas obras. Não é este o sonho de quase todos os políticos? Donos do dinheiro público, dando corpo a uma série de sonhos inconfessáveis e projectando o seu nome na História através da obra construída que brotou da sua imaginação.
Como em tudo há casos de sucesso, mas há outros que se descobrem autênticos desastres.

O Funchal está prestes a correr os riscos que outros lugares da Madeira já sentiram na pele: a transformação desqualificada da sua orla marítima. O Lugar de Baixo deu porto a um elefante branco, a Ponta do Sol foi ferida de morte, a foz da Ribeira de S. Jorge perdeu a graça da sua paisagem rural, junto ao mar a Ribeira do Faial engalanou-se despropositadamente, o Seixal ainda se conseguiu conter, o Jardim do Mar não se conteve cedendo à tentação de uma “promenade” que claramente ali não pertence e a Calheta foi invadida pelo deslumbramento que, desgraçadamente, uma praia de areia amarela pode causar.

Infelizmente a Madeira tem sofrido uma série de alterações na sua costa que parecem ter sido rabiscadas no papel com a ligeireza de quem não percebe o território onde está a intervir. O desenvolvimento da Madeira tem-se inspirado muitas vezes em modelos que pouco têm a ver com as características e potencialidades da ilha, com a sua paisagem dramática, de indelével carácter, que nos emociona quando nela pousamos o olhar.

Há situações em que os modelos até são adaptáveis e resultam bem. Há outros que revelam uma certa crise de identidade e se mostram algo ridículos. No passado recente a Madeira começou a ser ameaçada pelo “síndrome Abel Xavier”. Começou na Calheta e ameaça contaminar o Funchal. A ideia de “oxigenar” a areia da Praia Formosa no Funchal, trazendo areia amarela de Marrocos para “alindar” aquele lugar de lazer, parece ser completamente despropositado.
Corromper a paisagem da Madeira desta forma, poderá até colher o apoio popular, mas a defesa do interesse público tem que ir além disso e ser consciente do carácter que faz da Madeira um lugar diferente. Esta diferença é também aquilo que dá identidade a cada terra e àqueles que a habitam. É isso também que é atraente para quem nos visita, num mundo cada vez mais globalizado.

Imagem colocada

Segundo reza a História, a Praia Formosa já dispôs de uma boa quantidade de areia que a natureza, com a ajuda do Homem, se encarregou de subtrair. Não parece haver grande mal em criar condições para que se reponha essa areia com vista a tornar a praia mais confortável para os veraneantes. Mas importar areia amarela de Marrocos, matéria estranha ao ecossistema da ilha, só para tentar replicar uma imagem qualquer dum postal das Caraíbas, afigura-se um total disparate.

Vai por isso daqui um apelo aos Funchalenses para que digam NÃO à “Praia Abel Xavier”.
28 de Dezembro de 2006


Aqui fica um artigo com uma perspectiva interessante, publicado no blog www.sobrevoando.net...

Não é incrível tudo o que pode caber dentro de um lápis?...

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