Jump to content
Arquitectura.pt


Cais PalafÍtico Da Carrasqueira


ARA

Recommended Posts


A Carrasqueira é uma aldeia do Concelho de Alcácer do Sal e localiza-se na Reserva Natural do Estuário do Sado…um dos seus pontos de interesse é o seu Cais Palafítico e esta é a história que poucas pessoas conhecem e que teve início 30 anos atrás…



Os habitantes da aldeia da Carrasqueira dividem a labuta diária entre a faina do mar e o amanho da terra. A primeira pesca foi a apanha de amêijoas de cabeça (que eram vendidas a pessoas que se deslocavam à aldeia e aí as compravam). Nesses tempos não haviam balanças, pelo que eram utilizadas latas de meia arroba para servir de medida.


Depois as pessoas começaram a comprar ostras. Foi esta pesca que trouxe um grande desenvolvimento à Carrasqueira. Pelo que houve a necessidade de arranjar condições para acolher o crescente número de pescadores e respectivas embarcações.


E para que a pesca fosse possível, importava criar um acesso à água que não ficasse condicionado ao vai e vem das marés. É que, em situação de maré cheia a água atingia e às vezes galgava o “muro de maré” que defendia os terrenos agrícolas, para depois recuar na maré vazia algumas dezenas, senão centenas, de metros, entrepondo uma barreira de lodo entre a terra e a água.


Assim, escolhida que foi a melhor localização, no final de uma vala de drenagem dos terrenos agrícolas, dois pescadores lembraram-se de espetar uma estaca na borda do muro e puseram umas tábuas por cima para passarem. Os pescadores foram-se assim juntando dois a dois, constituiriam o seu bocado, espetavam mais estacas adiante do que estava e punham tábuas por cima, sendo que cada pescador atracava os barcos no seu lado. Este foi um processo evolutivo que prolongou o emaranhado de estacas e tábuas por centenas de metros.


Isto passou-se nos anos 50/60 e os pescadores eram poucos então. Reconhecendo no Estuário um manancial de riqueza tão próximo, as populações locais foram evoluindo no seu aproveitamento, abraçando cada vez mais a pesca como actividade mais lucrativa, mas sem abandonarem por completo a agricultura (a agricultura era a actividade dominante, enquanto a pesca inicialmente não era mais do que um complemento dos parcos rendimentos que a agricultura de latifúndio permitia aos trabalhadores)


E assim nasce o Cais Palafítico da Carrasqueira, que é hoje um dos locais mais visitados do concelho de Alcácer.





Lodo no cais palafítico da Carrasqueira


Isabel Lucas
(reportagem)

Os chapéus de palha avistam-se ao longe, no verde dos campos de arroz, mas é do mar que chegam aquelas mulheres. Saíram de casa às cinco da manhã e pouco passa das dez quando trocam o barco pela bicicleta e o chapéu pelo capacete. Regressam a casa e deixam na lota uns poucos quilos de amêijoa, chocos ou polvo. Otlinda da Costa, 62 anos, liga o motor da sua Vespa. Vive na casa da "flor cor-de-rosa bonita", mesmo no fim da aldeia quando se vai para o porto. Durante anos fez o caminho a pé. Agora vai "de mota". Elas vão e eles ficam, ajeitando as redes para o outro dia, limpado o barco, levando o peixe à lota. Eles e elas trabalham juntos, quase sempre aos pares, no mesmo barco. Otlinda vai e o marido ficou no cais depois de uma manhã na apanha da amêijoa. "Ele é o mestre e eu sou a camarada", explica. Explica também que uma manhã no mar "é poucochinho" para pagar a outro camarada, e que é por isso que eles andam com elas no porto palafítico da Carrasqueira, no estuário do Sado, bem perto da Comporta.

"Aqui nasci e aqui tenho dado cabo dos ossos", diz Joaquim Bacalhau atando um atrelado à bicicleta. Tem 71 anos e é um dos mestres mais velhos a navegar naquele porto. Nunca teve outra profissão que não a de andar à pesca naquelas águas. Lembra-se de serem "mais ricas", de haver mais peixe, marisco e "até ostras". Marisco já há pouco e as ostras acabaram. Quanto a ele, há muito que desistiu de procurar explicação para tal escassez. "Não sei se é da poluição..."

Joaquim Bacalhau é o dono do Lourdes Josélia, o barco em que navegou toda a manhã, sozinho, que "a mulher já não pode". Apanhou um litro de minhoca e isso valeu-lhe 25 euros. "Vem aqui uma menina buscar para mandar depois para Espanha." Joaquim já andou ao peixe, mas agora só apanha isco para ajudar à reforma. E é quando a maré deixa e o defeso permite. Este ano começou em Abril e há--de ir até Outubro, depois há que esperar mais uns meses, que "isto não é quando a gente quer".

A maré está baixa e os barcos chegam pelos canais que se formam na lama. Têm nomes como Volto Já, Depressa, Carvalhinha, Rainha do Sado. São azuis, amarelos, vermelhos, cor de laranja e dão cor ao cinzento do lodo e à madeira desbotada pelo tempo. Está a regressar o Estrela do Rio, seguido do Anda Pateta. Perto do Sempre com Deus, que está à venda, duas mulheres atravessam o "passadiço" segurando baldes de amêijoa. Foram no barco até à Setenave e acabaram a maré às nove e meia, cada uma com o seu mestre. No Maria Albertina, um homem passa a olho a rede. É Carmindo, pescador a quem o mar rendeu ontem um quilo de choco. "Muito pouco", queixa-se, de cigarro ao canto da boca. Carmindo é de poucas falas, mas deixa no ar mais uma frase como acrescento de desespero: "Abalei de casa às quatro da manhã..." Lamenta-se e vai passando a rede, acendendo um cigarro com o outro que se acaba. Mora na Carrasqueira como todos os outros, muitos na idade da reforma e alguns novos, como os dois rapazes do barco ao lado, o Belinha, ainda solteiros, sem mulher para camarada.

A manhã vai longa e a maré alteando até que vem o Aninhas, arrastando o Criança Sofre. Dirige-se ao seu lugar no porto. Cada pescador tem sítio fixo e compete-lhe manter o acesso em condições. A Câmara de Alcácer do Sal responsabiliza-se pela passagem colectiva, comum a quem atravessa o cais, como explica Leonardo, funcionário da Docapesca há tantos anos na lota quantos ela tem de vida. Já lá vão 22. Nesses anos são cada vez mais os de fora que atravessam o porto. "Aos fins-de-semana isto está cheio de gente, até vêm autocarros", comenta. E tudo para ver a Carrasqueira.

Não há pescador que Leonardo não conheça. Recebe-lhes o peixe a cada dia, pesa-o, paga-lhes o resultado do leilão, que aquela lota é pequena mas funciona como as grandes. Diz que são à volta de 60 e pelas suas contas ainda há barcos por chegar numa altura em que a água já vai cobrindo o lodo. Carmindo pode finalmente levar o barco até ao seu sítio. Já está navegável. Passa por ele um casal de turistas. Espantam-se com o emaranhado de paus, os remendos na madeira, comentam o lixo que a maré vazia revelou. Não reparam no Nova Carrasqueira, o barco mais velho do porto e que há muito deixou de navegar. Vão de mão dada e ela diz-lhe a ele: "Aquilo que se vê nas revistas não é exactamente isto." Carmindo não ouviu.

Link to comment
Share on other sites

Turismo em casas típicas da Carrasqueira



O projecto nasceu de um sonho de aliar a recuperação do património ao usufruto da Natureza e ao turismo ambiental, pelo que só pelo facto de ser um sonho mereceu ser incentivado. Quem o diz é o presidente da Câmara de Alcácer do Sal, Rogério de Brito, que no dia 17 de Junho presidiu à inauguração de um núcleo museológico numa cabana tradicional dos pescadores da Carrasqueira, recuperada pela recém criada empresa turística Cabana do Pai do Tomás, que dá o nome ao pequeno empreendimento turístico.

Uma pequena casa de férias, decorada com motivos tradicionais da Carrasqueira, onde se encontra o único cais palafítico da Europa, ao lado de um núcleo museológico no interior de uma cabana típica recuperada pelas gentes da terra, é o que a Cabana do Pai do Tomás/Casa de Natureza, oferece aos turistas que a partir deste ano vão contar com este refúgio em plena Reserva Natural do Estuário do Sado e inscrito nos roteiros turísticos da região.

A ideia de aliar o turismo ambiental ao turismo ligado ao património cultural da região partiu de António Tapum Ferreira, responsável pela empresa Mil Andanças, também ligada ao turismo da Natureza, depois de "alguns anos a promover percursos turísticos" por aquelas bandas. Assim, a inauguração desta unidade turística próxima das praias de Tróia e junto à Comporta, numa cerimónia acompanhada de uma exposição de quadros do pintor Eduardo Carqueijeiro, "significa um velho sonho concretizado". Por isso Tapum Ferreira incluiu na designação da empresa o nome do filho, Tomás.

Aberto ao público a partir deste ano, o empreedimento demorou "três anos a pôr de pé", não por resistências oficiais mas porque "a burocracia assim o manda", refere o empresário que, no entanto, mostra-se agradecido à empresa Atlântic Company, proprietária dos terrenos, ao Parque Natural da Arrábida/Reserva Natural do Estuário do Sado (PNA/RNES), ao Instituto de Conservação da Natureza e à Câmara Municipal de Alcácer do Sal, por onde o projecto teve de ser aprovado.

Também para o autarca alcaçarense, Rogério de Brito, a Cabana do Pai do Tomás é "um grande sonho" a concretizar e, por isso mesmo, "merece todo o apoio e valeu a pena apostar nele". Quanto aos benefícios daí decorrentes para o concelho, Rogério de Brito diz estar convencido de que a aldeia da Carrasqueira beneficiará com este novo empreendimento único do género em todo o país, visto que não se dissocia dos padrões culturais e naturais em que está enquadrado.

O núcleo museológico integrado na cabana típica de palha e canas, está aberto ao público em geral e funciona com marcações antecipadas. O espaço conta aos visitantes o dia a dia de gerações de famílias pescadoras da Carrasqueira, onde a faina no rio Sado continua a prevalecer. O apanhado de utensílios usados ao longo do último século, quer na decoração das casas tradicionais quer no trabalho diário da pesca artesanal, salvam do esquecimento a memória do povo de uma das aldeias mais típicas e originais da Europa.

http://www.mil-andancas.pt/pages/cabana/index.php
Link to comment
Share on other sites

Please sign in to comment

You will be able to leave a comment after signing in



Sign In Now
×
×
  • Create New...

Important Information

We have placed cookies on your device to help make this website better. You can adjust your cookie settings, otherwise we'll assume you're okay to continue.