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A Poética Do Espaço

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A Poética do Espaço de Gaston Bachelard Deve constar da bibliografia de qualquer curso de arquitectura, mas nunca é de mais relembrar. Filosofo racionalista, propõe-se a estudar a imaginação poética! Não se deixem intimidar pela pesada introdução, é na verdade muito acessível. Se já leram, releiam. [ame="http://www.amazon.com/Poetics-Space-Gaston-Bachelard/dp/0807064734"]Amazon.com: The Poetics of Space: Books: Gaston Bachelard[/ame]

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Aqui ficam alguns excertos:

"De que serviria, por exemplo, dar a planta do aposento que foi realmente o meu quarto, descrever o quartinho no fundo de um sotão, dizer que da janela, através de um vão no tecto, se via a colina? Só eu, em minhas lembranças de outro século, posso abrir o armário profundo que guarda ainda, só para mim, o cheiro único, o cheiro das uvas que secam na grade. O cheiro da uva! Cheiro-limite, é preciso muita imaginação para senti-lo"

Depois de uma apaixonada leitura dos valores mágicos dos sótãos e das caves, o autor lamenta:
"Em paris não existem casas. Em caixas sobrepostas vivem os habitantes da grande cidade (...):um lugar geométrico, um buraco convencional que mobilamos com imagens, com bibelôs e armários dentro de um armário.
...
A casa não treme sob os golpes dos trovões. Não treme conosco e por nós."

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E continuamos com os nossos domingos de poesia...

Para falar de poética do espaço, não serviria simplesmente descrever ou referenciar-nos num espaço concreto. O que o filósofo faz é utilizar-se das descrições de espaços feitas por grandes poetas - é a forma mais justa de transmitir o sentimento poético.

"O poeta conta que desde a sua infancia tinha desejado inutilmente possuir uma casa de campo com um jardinzinho e que, agora, com a idade de setenta anos, resolvera dá-los de presente a si mesmo, com a sua própria autoridade de poeta e sem nenhuma despesa. Começara por ter a casa, depois, aumentando o gosto pela posse, acrescentara o jardim, depois o bosquezinho etc.
Tudo isto só existia na sua imaginação; mas bastava para que essas pequenas posses quiméricas adquirissem realidade aos seus olhos. Falava delas, desfrutava-as como coisas verdadeiras; e a sua imaginaão era tão forte que eu não ficaria admirado se o visse preocupado com a sitação da sua vinha durante as geadas de Abril ou Maio
."

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A uma média de uma transcrição por semana calculo que em cerca de 20 anos terei transcrito o livro todo aqui para o forum, só pra vocês, amantes da poesia...

Uma coisa que me agrada muito neste livro é o respeito com que o autor trata as palavras. Sim, as palavras:

"Passo sempre por um pequeno choque, um pequeno sofrimento ... quando um grande escritor toma uma palavra em sentido prejurativo. Em primeiro lugar, as palavras, todas as palavras, cumprem honbestamente o seu ofício na linguagem da vida quotidiana. Além diso as palavras mais usuais, as mais comuns, não perdem por isso as suas possibilidades poéticas."

Mais à frente, falando da palavra vasto:

"Se eu fosse psiquiatra, aconselharia o paciente com angústia, a ler o poema de Baudelaire, a pronunciar muito suavemente a palavra vasto, que transmite calma e unidade - essa palavra que abre um espaço, que abre o espaço ilimitado. Essa palavra ensina-nos a respirar com o ar que repousa no horizonte, longe das paredes das prisões quiméricas que nos angustiam. ...
...não se pode pensar a vocal «a» sem que se enervem as cordas vocais... Pois essa pequena arpa eólica, ...colocada pela natureza na porta da nossa respiração, é um sexto sentido que surge depois dos outros, acima dos outros
."

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O livro é uma fonte inesgotável de motivos e de temas para o arquitecto trabalhar, pelo menos para quem souber retirar dos motivos poéticos paredes, portas e janelas. Os nossos espaços sonhados serão como rochedos, montanhas, nas memórias dos seus habitantes. "A escada da cave desce sempre, nas nossas lembranças, penetrando o escuro da cave... a do sotão, sobe sempre, em direcção ao céu..." E não é que é mesmo verdade! Se fizerem o exercício de se recordarem do casarão da vossa avó, irão verificar que é assim que se recordam dos espaços. Já a escada do primeiro para o segundo piso tanto sobe como desce. É mais ambígua...

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Acho que sentir-me-ia realizado se soubesse que consegui convencer uma única pessoa a realmente pegar no livro e dar uma vista de olhos. Não acho que seja coisa pouca. Frequentemente penso que qualqer coisa que esteja além de uma pesquisa no Google já é pedir demais. Não veem que isso faz mal aos olhos?!!

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Falamos dos poetas de que fala Bachelard, faltou falarmos do poeta que Gaston Bachelard é. E com uma humildade que comove: "Convém lembrar que é uma pessoa mediocre que fala, mas apoiada nos grandes poetas!" Quantos genios tem o direito a dizer mais do que isto??

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Falamos dos poetas de que fala Bachelard, faltou falarmos do poeta que Gaston Bachelard é. E com uma humildade que comove: "Convém lembrar que é uma pessoa mediocre que fala, mas apoiada nos grandes poetas!" Quantos genios tem o direito a dizer mais do que isto??

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Falamos dos poetas de que fala Bachelard, faltou falarmos do poeta que Gaston Bachelard é.

E com uma humildade que comove:
"Convém lembrar que é uma pessoa mediocre que fala, mas apoiada nos grandes poetas!"
Quantos genios tem o direito a dizer mais do que isto??

"Não se encontra o espaço, é sempre necessário constuí-lo"
Gaston Bachelard

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É necessário construí-lo sim Mas "o artista não cria como vive, mas vive como cria."! (Lescure, citado em "Poética do Espaço", pg. 17. Veja-se Fernando Pessoa. A sua maior proesa foi viver como poeta, ser poeta em primeiro lugar, que depois teve de escrever umas coisitas para ganhar a vida - resconstituir a beleza de um momento... E o mesmo se poderia dizer de Beethoven, cujas magníficas improvisações nunca chegarão aos nossos ouvidos, excepto por relatos históricos, e por algumas passagem das suas obras.

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Já vi uma editora brasileira: Martins Fontes preço 11 euros (aprox) 200 e tal paginas, vou ver se encomendo na fnac ou na byblos nos sites destas lojas não vi nenhum a venda :D

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Sempre achei que o problema das pessoas quererem uma casa é o não saberem, realmente, que casa querem... "...não se trata de descrever as casas, de pormenorizar-lhes os aspectos pitorescos e de analisar as razões do seu conforto. É preciso superar os problemas da descrição (...) para atingir as virtudes primárias, aquelas em que se revela uma adesão inerente, à função original do habitar." O quê?! Tá-me a dizer que existe uma espécie de primitivismo, associado ao habitar, que não compactua com nenhuma imagem? com nenhuma solução? com nada pré-descrito?... Então como resolver esse problema??? Com poesia

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Manusear um livro é uma arte que requer alguma paixão. Se pretendemos apenas ter uma ideia sobre o que é que o autor fez com aquele livro, sem ter de ler o livro, como encontrá-lo? Neste caso é mais ou menos evidente: face à longa introdução, será, provavelmente, no último capítulo da introdução que ele vai dizer o que quer fazer... Mesmo sem ler

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Não acredito em fazer trabalhos pela negativa, mesmo que a crítica seja justa. Tornar-se-ia, para mim, um inferno.
"Fiel à minha vontade de nunca me incomodar com nada, imagino que (as marteladas do meu vizinho) são um pica-pau a construir um ninho..."
É tão mais agradável fazê-los como elogio, para partilhar de uma alegria que determinado assunto ou autor nos congratulou.
"Ninguém sabe que na leitura revivemos as nossas tentações de ser poeta... todo o leitor que relê uma obra que ama sabe que as páginas amadas lhe dizem respeito"

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"Imensidão Íntima" pode, à primeira vista, parecer uma contradição em si mesma - se é íntima não deveria ser confinada?... Mas logo o autor encontra uma imagem brilhante para ilustrar essa imensidão: uma floresta! "não é preciso permanecer muito tempo num bosque para perceber que mergulhamos num mundo sem limites". Precisamente porque toda essa imensidão se encontra povoada por ramos, troncos, folhagem, luz e sombra, não é um vazio neutro: toda a sua extensão pode ser habitada, mesmo que só pelo olhar (já que perdemos as nossas capacidades de saltar de ramo em ramo... "a floresta é um estado de alma. Os poetas sabem disso. Alguns indicam-no numa única linha, como Jules Supervielle, que sabe que somos, nas horas serenas, «habitantes delicados das florestas de nós mesmos».

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Menti quando afirmei, no meu primeiro post, que este livro é, "na verdade, bastante acessível". Quer dizer, é e não é. É porque, apesar da péssima tradução, as palavras constroem frases cuja semântica fazem eco na alma. Não é porque exige do leitor uma predisposição fora do normal: exige que o leitor esteja na intimidade de sua casa, em solidão: nos mesmos termos em que o próprio livro foi escrito. Só assim ocorre aquela cumplicidade, aquela simbiose entre o leitor e o escritor. Essa simbiose parece-me semelhante àquele casamento entre o sítio e o lugar a que nós, arquitectos, estamos habituados a aspirar: as coisas só fazem sentido no seu devido lugar

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Escusado será dizer que estas sessões deixaram de ser "domingos de poesia" para passar a ser "dias em que me dá da telha" poesia. Fiel a este horário rigoroso, aproveito esta para falar menos deste livro e de arquitectura, e mais de poesia (não que tivéssemos falado de muito mais coisas). Mas e agora... que dizer?... Poesia é a mentira que diz a verdade. É querer ultrapassar a linguagem para melhor dizer. Como tal é um acto novo, é uma invenção. ("A poesia não tem passado... na sua novidade, a poesia é um ser próprio") Baudelaire, Shubert, Loos, Delacroix... Por vezes penso que procuram todos o mesmo: a expressão precisa de uma novidade que, sendo ilusão, diz a verdade

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No outro dia aconteceu-me uma coisa magica. Estava eu, na tranquilidade do meu lar, a ouvir as variações de goldenberg (de Bach), olhei sobre a janela e as sebes do vizinho dançavam (sob influencia do vento) ao mesmo ritmo e tom da musica. Por momentos pensei que Deus estivesse falando comigo. Não sei descrever aquele momento. Cada vez que parava para pensar, as sebes paravam tb... Alguns ramos eram mais específicos do que outros, mas igualmente aglutinantes

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