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Debaixo da terra

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Debaixo da terra

Hélder Pacheco, Professor, e escritor

Oúltimo número da revista "Urbaine", cujo lema é "Descobrir e repensar as cidades europeias" (bem adequado à realidade portuense actual) era dedicado a um tema inovador e, convenhamos, fascinante. Embora entre nós as ideias transformadoras avancem - apesar do Simplex oficial e do Prafrentex intelectual -, se não às arrecuas, muitas vezes a passo de lesma (que, dizem os entendidos, é pior que um caracol), vale a pena falar delas a ver se daqui por 50 anos cá serão adoptadas.

E as ideias expostas sob a forma de projectos em andamento são, ao menos para mim, entusiasmantes. Se mandasse na cidade, adoptava-as já. Punha-as em marcha, pois resumem o enunciado exposto na capa sob a forma de pergunta "Subsolo - parque de estacionamento e armazenamento ou novo espaço cultural?" Seguida de uma resposta: "Tudo ao mesmo tempo! Na Europa, agitam-se as ideias para fazer evoluir o mundo subterrâneo!"

Depois, o editorial propunha "Deixemos de passar por cima sem olhar o que está por debaixo" de nós. No entanto, advertia: "Não apelamos a enterrar a cidade mas a compreendê-la. Depressa o assunto se revela como um prazer intelectual: compreender sobre o que caminhamos, de onde nos vem a água, a electricidade, por onde passa o metro, o que ocultam os solos urbanos". E acrescenta: "O homem consciente deve descobrir esta complexidade." Vêm depois os exemplos: em Nápoles, subterrâneos são aproveitados para a cultura de plantas num microclima constante. Em Varsóvia, passagens no subsolo alojam lojas ao abrigo da intempérie. Em Paris, catacumbas e esgotos constituem-se em museus, explicando a evolução da cidade. Em Baux, na Provença, uma antiga pedreira transformou-se em espaço de projecção de fotografias, pinturas e filmes nas suas vastas paredes brancas. Em Cracóvia, uma antiga mina de sal abriga enorme capela a 134 metros de profundidade, contendo esculturas e decorações talhadas na rocha. Em Londres, está em curso uma operação destinada a transformar cerca de mil arcadas subterrâneas em jardins susceptíveis de atrair investidores que as adequem a novos usos. Outras cidades tratam de acrescentar a estações de metro e parques de estacionamento a função de equipamentos culturais, através de projecções, representações, decorações, mostras de esculturas e pinturas, instalações luminosas, exposições, etc.. Enfim, os exemplos abrangem dezenas de projectos e cidades.

Obviamente, as cabeças de muitos conformistas, uns quantos tecnocratas e certos modernizadores de trazer por casa acharão isto ridículo. Mas não pude deixar de pensar na quantidade de espaços disponíveis no Porto, cinzentões, degradados, tão desleixados quanto as políticas de valorização da qualidade de vida das cidades e completamente desprezados. Exemplos o túnel da Ribeira (onde nem sequer iluminação decente é assegurada, já que a maior parte está apagada, em vergonha terceiro-mundista) está como no tempo da outra senhora: forte, feio, sujo e desprezado. Na defunta avenida havia, antes da sua transformação em eira, um subterrâneo com sanitários e um interessante bar-convívio. Foi tudo para o maneta! Nos Congregados, havia um túnel condenado como passagem de peões mas, com imaginação e talento, transformável em equipamento útil. O túnel da Alfândega, obra notável da engenharia oitocentista, é um escarro. A fantástica galeria que trazia a água de Arca de Paranhos até aos Leões, constituindo das mais grandiosas obras públicas da história da cidade, poderia afirmar-se como recurso histórico, cultural e turístico de primeiro plano. E o que poderia ser feito na imensidade espacial dos parques de estacionamento que, além da função de armazenarem automóveis, nenhuma utilidade social e cultural desempenham? E nem falo das estações do metro, esplêndidos exemplos da depuração minimalista, tão isentas de alma quanto as morgues, tão inócuas e frias quanto os corredores de penitenciárias, tão depressivas quanto certos filmes suecos e mais tristes do que alguns cemitérios! Que sensaboria!

(Expus estas reflexões a um amigo cínico e descrente de tudo. Ele retorquiu "Em terra onde se trata tão mal o que está à vista, queria você que cuidassem do que está enterrado e não se vê? Tenha juízo!" Sem resposta, meti a viola no saco. Mas como sou teimoso, aqui estou a tentar vender o meu peixe...)


Link:
http://jn.sapo.pt/2007/12/06/porto/debaixo_terra.html

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Sempre me pareceu que a lesma é mais lenta que o caracol e mais rápida do que o mexilhão, não que seja grande entendido no assunto.
Como é que o meu amigo quer que se aproveitem os subterraneos do Porto?
Já alguém lhe mencionou o facto do Porto estar instalado sobre um poderoso sólido granítico?
Nem sei porque se admira de as coisas serem reaproveitadas se a função nunca foi qualidade específica do espaço nem da arquitectura. Serão tão mais aproveitáveis quanto melhor seja a sua Proporção, por exemplo, ou por outra qualidade que possua.
O país não faz não porque não seja capaz - tal como foram capazes de fazer o melhor da arquitectura italiana os arquitectos do manuelino, mas porque não se adapta ao que temos, nem é isso que queremos.

Mas, já agora, veja o museu do Urbino.

Continue a trazer peixe, que nós agradecemos

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