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Vazios Urbanos

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Vazios urbanos: o que é?
«São lugares aparentemente esquecidos em que parece predominar a memória do passado sobre o presente. São lugares obsoletos em que apenas certos valores residuais parecem manter-se apesar da completa desafectação da actividade da cidade».
É assim que o arquitecto e filósofo Ignasi de Solà-Morales (1942-2001), que foi catedrático de teoria e história da arquitectura em Barcelona e professor convidado em várias universidades europeia e americanas, propõe que se definam os «vazios urbanos», tema da Trienal Internacional de Arquitectura de Lisboa.
Segundo refere, «são, definitivamente, lugares externos, estranhos, fora dos circuitos habituais, das estruturas produtivas. De um ponto de vista económico, [são] áreas industriais, caminhos-de-ferro, portos, áreas residenciais inseguras [que] se converteram em áreas das quais se pode dizer que a cidade já não mora ali».
Os organizadores da Trienal dizem que os vazios são «fenómenos de rarefacção, indefinição ou ruptura urbana, inúmeras vezes associados a novas realidades de colonização territorial ou a processos de marginalização, degradação e decadência física, económica e social nos organismos complexos, muitas vezes com vários centros, que são as cidades».
Já a arquitecta Sofia Morgado, autora de uma tese sobre os vazios urbanos na Área Metropolitana de Lisboa, especifica este conceito de vazio: é «o espaço ligado às infra-estruturas urbanas preferentemente não edificado mas com funções sociais e urbanas relevantes para o equilíbrio da cidade contemporânea».
Morgado lembra que o arquitecto Rem Koolhaas, cujo ateliê projectou a Casa da Música no Porto, identifica mesmo os vazios urbanos como «o grande potencial metropolitano da Europa», sobre os quais pode recair a intervenção do planeamento actual uma vez que «são mais fáceis de controlar do que o edificado» já existente.
Na base da ideia de Solà-Morales está o termo francês «terrain vague». É uma «extensão de terreno edificável, expectante e potencialmente aproveitável» (terrain), cuja falta de uso remete para uma «promessa [de que tudo se pode fazer lá]», que carrega uma conotação de «liberdade e vagabundagem» porque é «impreciso e indeterminado» e que remete ainda para a ideia de «oscilação, instabilidade, flutuação» (vague).
Os organizadores da Trienal esclarecem que a questão dos vazios é «facilmente reconhecida pela população da Área Metropolitana de Lisboa como um conjunto de problemas que permanece sem solução ou que se agrava com o tempo».
Alguns dos exemplos que dão estão marcados pela controvérsia da discussão no espaço público (mas também pela falta de uma verdadeira discussão pública que integre os interessados, para lá dos promotores imobiliários): Parque Mayer, Feira Popular, vales de Alcântara e de Chelas, Matinha, Siderurgia, Falagueira, entre outros.
A Trienal vai recordar que «para estes vazios urbanos, em muitas cidades do mundo, equacionam-se, debatem-se e concretizam-se novos conceitos e estratégias de intervenção, modelos de sustentabilidade e intervenção, bem como plataformas de interacção público/privado».
No entender dos promotores do concurso de ideias «Intervenções na Cidade», integrado na Trienal e que pede ideias para espaços à espera de requalificação, vazios urbanos são «espaços que potenciem a memória, a identidade colectiva ou o uso quotidiano na expressão da troca e do comércio, da informação e da comunicação, do debate e da manifestação».
Mas são, igualmente, espaços que «aguardam pacientemente por uma requalificação» embora não deixem de «potenciar uma liberdade alternativa à cidade normalizada e previsível», no que se aproximam da ideia de Solà-Morales.
Segundo o comissário-geral José Mateus, a organização da Trienal não sustenta, apenas, «possíveis soluções arquitectónicas e urbanísticas para essas áreas» – propondo que elas retornem à «eficácia produtiva da cidade», ou seja, «todos os cenários são possíveis». Mas Solà-Morales reivindicava a permanência do estado de improdutividade, de diferenciação e de fuga à lógica dos sistemas de análise do urbanismo tradicional.
«Que fazer perante estes enormes vazios, de limites imprecisos e de vaga definição? Tal como ante a natureza (…) a reacção da arte é preservar estes espaços alternativos, estranhos, estrangeiros à eficácia produtiva da cidade. Se a ecologia luta por preservar os espaços incontaminados de uma natureza mitificada como mãe inalcançável, também a arte contemporânea parece lutar pela preservação destes outros espaços no interior da cidade.
Os realizadores, fotógrafos, escultores da performance instantânea procuram refúgio nas margens da cidade precisamente quando ela oferece uma identidade abusiva, uma grande homogeneidade…», afirma Solà-Morales.
O arquitecto catalão (nasceu em Barcelona) assume que, na essência da arquitectura, está «a condição de instrumento de organização, de racionalização, de eficácia produtiva capaz de transformar o inculto no cultivado, o baldio no produtivo, o vazio no edificado».
E, portanto, arquitectos e urbanistas «parece que não podem fazer outra coisa senão introduzir transformações radicais quando projectam o seu desejo sobre um espaço vazio (…) trocando a estranheza pela cidadania e pretendendo, a todo o custo, mudar a magia incontaminada do obsoleto pelo realismo da eficácia».
Como se a «contra-imagem» da cidade só tivesse uma alternativa que é a sua domesticação.

ANTÓNIO HENRIQUES
Referências:
Ignasi de Solà-Morales, Territorios, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, 2002
Textos de comissários da Trienal Internacional de Arquitectura de Lisboa

© OASRS 1/26/2007

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Um vazio informal sempre na berlinda
A Praça do Comércio/Terreiro do Paço é uma praça formal que as pessoas usam informalmente. Está outra vez na berra, devido ao futuro «reordenamento» do vazio que a constitui.
Alunos de uma escola de fotografia fizeram, há 10 anos, a monitorização dos fluxos de peões ao longo de um dia na Praça do Comércio. O resultado não foi propriamente estranho: evidenciava a necessidade de atravessar a praça (na diagonal) para apanhar o barco, situação que ainda hoje se mantém.
Mas as imagens obtidas a partir do arco da Rua Augusta também destacavam o carácter de ligação à paisagem e à cidade, ludicamente apropriado pelas pessoas, de uma praça que está outra vez na berra devido ao prometido «reordenamento».
Olha-se para o rio e vê-se a outra margem até à Serra da Arrábida. «A paisagem é o quarto alçado, para além da presença de uma arquitectura de repetição e modulação», diz Pedro Pacheco, arquitecto co-autor de um projecto de intervenção no Terreiro do Paço desenvolvido entre 1992 e 1999.
Vazio cheio de carros
A Praça do Comércio já foi um vazio urbano quando esteve repleta de filas de automóveis e transformada num parque de estacionamento que a descaracterizou e desqualificou. «Penso que a ocupação dessa forma irracional induzia nas pessoas uma espécie de pré-consciência da sua importância. Não era normal olhar a praça e ver um amontoado de carros», afirma Pedro Pacheco.
Em 1992, a Câmara Municipal de Lisboa lançou um concurso de ideias para o Terreiro do Paço. A proposta dos arquitectos José Adrião e Pedro Pacheco, a melhor classificada entre 19 propostas e mais de 50 concorrentes, foi pensada para uma praça que se tinha convertido num parque de estacionamento.
Por isso, propunha-se que o parque automóvel descesse ao subsolo na companhia de instalações técnicas. Porque a ideia era, também, infra-estruturar a praça (com a respectiva cablagem, acesso a água e electricidade) para que ela estivesse sempre funcional quando se organizassem eventos.
Os arquitectos previam a colocação de 20 caixas simetricamente colocadas ao longo da praça, que podiam elevar-se desde o subsolo (à semelhança de uma que existe na Praça do Município, integrada no piso térreo), justamente para providenciar essa logística e evitar o emaranhado de fios e geradores para cada evento no Terreiro do Paço.
Prioridade aos peões
Igualmente significativo era a pedonalização que corria as arcadas, atravessava, de um passeio ao outro, as ruas da Prata e do Ouro – criando uma supremacia dos peões em relação aos automóveis ao contrário de hoje -, atravessava o próprio interior dos torreões (hoje inacessíveis) e ia até perto do rio para criar o «corredor das marés» - um espaço de lazer que permitia desfrutar o rio.
Além disto, criava-se uma ligação a dois claustros inacessíveis ao público: os do Ministério das Finanças e do edifício onde funcionou o serviço de distribuição postal dos Correios.
Fora das arcadas, haveria esplanadas e na praça grupos de toldos definiriam espaços de ocupação e sombreamento facilmente movíveis. Se o nome que se manteve (Terreiro) remete para um espaço vazio, José Adrião e Pedro Pacheco achavam que esse vazio, «interpretando-o como silêncio» podia «tornar-se lúdico ou activo em períodos pontuais e esporádicos», fazendo reviver a praça.
Praça sem terreiro
A ideia dos arquitectos foi parcialmente executada e, em 1997, a praça foi mesmo inaugurada com as estátuas rotundas do escultor Botero a servirem de chamariz. As fotos datam dessa época. Era uma remodelação provisória que se mantém há 10 anos. O desenvolvimento do programa foi entregue em 1999 na Câmara de Lisboa e, desde aí, não houve avanços práticos.
Pedro Pacheco lembra que «o local só teve um desenho estabilizado no início do século XX, quando era, justamente, terreiro». E recorda que o «desenho da praça nunca esteve acabado, quanto ao pavimento».
«Nós propusémos criar um terreiro na Praça do Comércio com grandes lajes feitas com escombros do terramoto [seria obrigatório remover o solo para infra-estruturar a praça] que introduziam uma escala diferente na relação com as pessoas: de anulação do desenho e de redução deste à matéria».
Poder e democracia
Pedro Pacheco continua a defender que a praça «deve ser tratada com grande contemporaneidade» para voltar a ser ocupada no dia-a-dia e não só em situações pontuais de festa. «A praça tem uma formalização definida e uma estrutura geométrica muito precisa que configuram um lugar excepcional. A nível arquitectónico, está lá tudo o que é preciso».
A esta formalização, contrapõe-se uma ocupação informal por parte das pessoas, que é preciso aproveitar, como já se demonstrava nas fotografias recolhidas por alunos. «Podemos contrapôr a essa ideia da praça do poder absoluto, presente na arquitectura, a ideia de uma praça democrática, mais conforme com os nossos tempos. Se os fluxos são informais, por que não há-de sê-lo o programa de desenvolvimento da praça?».
Isso faz-se através do desenho e do programa. «Ambos determinam o carácter absolutista ou não da praça».
ANTÓNIO HENRIQUES
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Pontualmente, o Terreiro do Paço pode ter vacilado nessa dimensão [de vazio urbano]. É um vazio, mas não é um vazio urbano no sentido filosófico que se atribui ao termo. É um vazio com um sentido de contraste entre um espaço de silêncio e um espaço de festa.
Pedro Pacheco
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O concurso da Câmara de Lisboa fazia parte de um plano mais amplo de actuação na cidade do ponto de vista urbanístico e contou com o apoio da então Associação dos Arquitectos Portugueses (AAP).
O júri incluía técnicos de ambiente, trânsito, infra-estruturas e reabilitação urbana do município e representantes da AAP, Instituto do Património, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, Sociedade Portuguesa de Urbanistas e Faculdade de Arquitectura.
A proposta de José Adrião e Pedro Pacheco foi considerada a que mais se aproximava dos objectivos para a Praça do Comércio: «recuperar o equilíbrio da cidade-rio» e a «simbólica da praça como terreiro».
Queria-se «promover a animação das arcadas com instalações culturais», bibliotecas, galerias, salas de exposição, feiras especializadas e o novo museu da Lisboa Pombalina, além de reordenar os espaços de transbordos entre transportes públicos (rodoviário e fluvial) e mudar o terminal de Cacilhas para o Cais do Sodré, mantendo-se os do Barreiro e Montijo.
Como objectivos mais latos referia-se o reforço da centralidade política e cultural da Baixa/Chiado e a promoção da salvaguarda dos valores patrimoniais – a classificação da Baixa como património mundial em pano de fundo – a reabilitação de edifícios, a melhoria de condições de segurança, a recuperação da estrutura comercial, a reabilitação do espaço público com prioridade ao uso pelos peões e a instalação de equipamentos hoteleiros e de restauração.
Os objectivos de «restituir ao Terreiro do Paço a dignidade que merece», promover a «animação urbana da zona central e das arcadas» e «revalorizar o Terreiro do Paço», considerado uma área estratégica de intervenção», mantêm-se tão actuais como então. Nada de muito estranho a isto foi dito no dia de apresentação da proposta de revitalização da Baixa-Chiado, a 6 de Novembro de 2006. A questão é que plano seguir para concretizar as intenções.

AH

© OASRS 1/22/2007

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Área Metropolitana em cinco momentos
A tese de Sofia Morgado assinala cinco datas significativas, desde 1860 a 2001, que evocam, na sua duração, profundas transformações no território. Os estuários continuam a vincar o seu papel. O do Tejo aumentou a sua importância muito recentemente.
1860: Água, grande vaso comunicante
Em 1860, os estuários do Tejo e Sado formam um «mar interior» (Mar da Palha). Juntamente com a frente atlântica e a morfologia das penínsulas, determinam «um território singular (…) onde predominam as paisagens atlânticas e mediterrâneas» exaltando o valor do comércio, da pesca e da conquista de novas terras como grande motor de localização de Lisboa e Setúbal – ambas na margem norte, ambas banhadas a sul pelos estuários respectivos. É uma época incipiente do ponto de vista urbanístico, mas estão lá os determinantes da futura identidade territorial.
O estuário do Tejo permite a localização de um porto de águas profundas, tendo determinado a localização da capital. Ao mesmo tempo, os esteiros situados predominantemente a sul explicam a existência de vários aglomerados (Seixal, Moita, Montijo e Alcochete) que actuam como receptores de produtos vindos do sul e que fazem intercâmbio com Lisboa.
No caso da Península de Lisboa, é fácil perceber que a costa atlântica, profundamente escarpada, só permite a ocupação pontual em pequenas enseadas (caso das Azenhas do Mar), enquanto que os areais e declives menos pronunciados do Cabo Raso a Lisboa, virados a sul, se abrem ao futuro desenvolvimento urbano.
Virando a página para a Península de Setúbal, observa-se que a cidade do Sado, num ponto portuário estratégico, tem contra si a impossibilidade de crescer para Oeste (Serra da Arrábida).
Nesta época os vazios predominam claramente: os grandes espaços geográficos apenas permitem a criação do solo rústico e o grande meio de comunicação é a água.
1940: Industrialização
Entre o século XIX e 1940, o território começa a estruturar-se em direcção à futura metrópole de Lisboa (as primeiras redes de comboio e estradas adaptadas à morfologia territorial originam um progressivo desenvolvimento a partir dos grandes eixos de oportunidade criados).
«O caminho-de-ferro organiza-se em função do papel central de Lisboa e o seu porto determina a constituição de um anel à volta das áreas das zonas de maior profundidade do estuário» [do Tejo].
Esse anel e o eixo de Lisboa à Azambuja determinam a localização das grandes indústrias e das ocupações portuárias. A ampliação do porto de Lisboa faz-se à custa de aterros e criação de solo artificial (ver texto «Frente Ribeirinha, a área delicada de Lisboa») entre o espaço urbanizado da cidade e as áreas de maior profundidade do canal do Tejo, «modelando as margens naturais e sustentando o carácter de praia que caracterizava a frente ribeirinha no século XIX».
De acordo com Sofia Morgado, esta modelação pretende «criar linhas de infra-estrutura de grande especialização» que acabaram por acentuar as características morfológicas do território. Mas também a paisagem agrária se infra-estrutura nesta altura.
É na Península de Setúbal que se assiste a um grande desenvolvimento da exploração agrícola, com cultivo intensivo em áreas suficientemente grandes para permitirem a produção especializada e mecanizada e próximas quer do caminho-de-ferro quer do porto de Lisboa. Estas áreas agora aproveitadas a todo o vapor estavam quase incultas no século precedente.
As grandes infra-estruturas de comunicação (caminho-de-ferro, estradas) «e a formação de um primeiro anel de ligação entre as duas margens» introduzem uma nova hierarquia territorial centrada em Lisboa, que «determina a formação de zonas de oportunidade» em terrenos rústicos obsoletos.
Nestas zonas, há a considerar os eixos de oportunidade principal nacionais (Lisboa/Vila Franca/ e Barreiro/Pinhal Novo/Setúbal), ou seja, a localização das indústrias e grandes explorações agrícolas; os eixos de oportunidade principal suburbanos (linhas de Cascais e Sintra), onde se localizam as terras que continuam a ter um uso predominantemente rústico; e a coroa de transição entre Lisboa e a envolvente rústica, limitada pela linha-férrea e pela ‘nova’ Estrada da Circunvalação, ocupada por áreas rústicas em acelerado desuso, alguma indústria dispersa e novas ocupações que induzem as mudanças como o aeroporto.
A referida estruturação conduz a que a região saloia mantenha os usos tradicionais pela impossibilidade de a agricultura se especializar; que a zona entre Lisboa e Cascais constitua a área fundamental de crescimento urbano; que a zona de Almada comece a destacar-se da frente ribeirinha pela criação de infra-estruturas (estradas); e que a bacia sedimentar do Tejo se revele como o aglomerado de grande áreas de especialização agrícola.
Nesta altura a hierarquia territorial altera-se profundamente. A ligação de vários centros através das infra-estruturas faz com que os vazios sejam «espaços de oportunidade». As características desses vazios acabam por mudar face à possibilidade de se ligarem à rede urbana: são agora grandes áreas de especialização, artificiais como as zonas portuárias construídas a partir das linhas de água, grandes áreas agrícolas nas quais os acessos (caminho-de-ferro e portos) determinam um novo parcelamento e a introdução da mecanização.
Na verdade, trata-se da sobreposição dos espaços construídos face às áreas naturais: «a criação da infra-estrutura do território e a especialização e uso intensivo do espaço antes desocupado».
1965: Metrópole nascente
A primeira área urbana polinucleada (‘conurbación’ no texto original), localizada entre Cascais e Vila Franca, incluindo Lisboa, desenvolve-se nesta altura.
Intensifica-se a exploração da terra no sentido de retirar o máximo proveito – o que só se consegue à custa da especialização. Mas a topografia, certas particularidades e os chamados «eixos de oportunidade» ditam situações diversas nas penínsulas de Lisboa e de Setúbal.
Na Península de Lisboa observa-se a redução do espaço desocupado nas pequenas e médias propriedades e em locais de topografia mais irregular. Já na Península de Setúbal verifica-se uma especialização da grande propriedade a nascente do eixo Montijo-Setúbal e a poente da Herdade da Apostiça. Na verdade, assiste-se a uma grande especialização do solo, urbano e rural, e cada área evidencia um uso particular.
As vias de comunicação proporcionam o crescimento suburbano. O estuário do Tejo, através das obras que permitem aumentar a navegabilidade, e a bacia do rio formam um eixo fluvial fundamental. Enquanto que, na região saloia e na zona Sintra/Mafra, começam a formar-se «perímetros urbanos incipientes», a área entre Ericeira e Sintra (incluindo a serra de Sintra) e a zona dos cabos da Roca e Raso mantêm as características rústicas do solo.
Na banda sul, a ponte sobre o Tejo acrescenta novas oportunidades às criadas anteriormente pelas indústrias, no espaço Almada-Fogueteiro-Santana; entre Azeitão e Palmela começa a formar-se «uma linha difusa de urbanização». Termina a oposição entre território urbano e não urbano, que caracterizou as épocas precedentes.
Os vazios «fragmentam-se sob diversas formas, ditadas pela integração ou pela exclusão das redes de comunicação» (isso é válido para a linha do metro, em Lisboa, para a travessia automóvel do Tejo ou para as auto-estradas). Estas vias «segregam definitivamente as pequenas propriedades periféricas», localizadas em terrenos mais acidentados, que não podem especializar-se.
A expansão suburbana segue a lógica do movimento pendular diário que se faz em direcção ao centro principal da área metropolitana, Lisboa.
1992: Rede de mobilidade rápida
A metrópole de Lisboa evidencia uma forte urbanização nas margens norte e sul do Tejo. Os novos «eixos de oportunidade» conduzem a uma redução, «aparentemente homogénea», da densidade dos vazios.
Isso significa uma paisagem sem grandes referentes urbanos, muito indiferenciada, um pouco indiferente.
Com o desenvolvimento do sector terciário e a consequente marginalização das áreas industriais e portuárias que tão importantes foram durante o século XX, os vazios dividem-se ainda mais sob o impulso das redes urbanas.
Quer dizer que as vias de comunicação, mais densas e eficazes, começam a convergir para centros alternativos à capital. Grandes áreas anteriormente rústicas são acessíveis por estrada. «Os novos verdadeiros centros são espaços inóspitos e vazios à beira das auto-estradas».
Se os principais rios foram o grande chamariz para os primeiros habitantes, verifica-se agora que as linhas de água definem os limites da urbanização: ora circunscrevendo-os ora impulsionando-os.
As infra-estruturas e o edificado «expandem-se a todo o território» o que significa a criação de novos centros ligados pelas vias de comunicação. Constrói-se «o tempo em que se pode chegar a qualquer lado». Pode ser aos eixos e «espaços de oportunidade» metropolitanos ligados a saídas de auto-estradas e a estações de caminho-de-ferro. E pode ser a aos «espaços intermédios de oportunidade local», zonas desocupadas entre ocupações urbanas, desligados da rede urbana e, portanto, temporariamente com pouco interesse e inacessíveis.
Há, ainda assim, vazios urbanos «que circunscrevem ocupações segmentadas» e que são o retrato de áreas de difícil ligação à metrópole, como é o caso dos terrenos do aeroporto de Lisboa.
A grande área urbana com vários núcleos (Lisboa, Sintra, Cascais) é «um mosaico de espaços ocupados e desocupados» que se estende a Almada e Fernão Ferro. Forma-se um eixo entre Cascais-Sintra e Malveira, com parcelamento da terra e edificação (primeiras e segundas residências).
Em Loures e Odivelas (locais dependentes de Lisboa) as parcelas tradicionalmente rústicas entram em colapso, mas no eixo Montijo-Setúbal as parcelas rústicas são substituídas por «novas oportunidades» que vêm com o prolongamento da auto-estrada. A construção intensifica-se no espaço entre Montijo, Moita e Pinhal Novo.
Os únicos espaços «expressamente abertos» são aqueles determinados pelos cursos de água, pela terra e pelo mar: as serras de Sintra e Arrábida, os estuários do Tejo e Sado que se qualificam como áreas protegidas.
2001: Protagonismo dos vazios, anódinos e silenciosos
O estuário do Tejo ganha ainda mais importância com a construção da Ponte Vasco da Gama, torna-se o ponto central da metrópole. Entre a Expo’98 e Alcochete define-se um anel metropolitano.
Lisboa encontra-se a caminho de uma «transformação supra-metropolitana», quer dizer, está integrada em redes europeias de mobilidade de pessoas e produtos. O sector produtivo dirige-se não só aos serviços mas às «actividades do conhecimento» (tecnologias, investigação de ponta).
Acentua-se a necessidade de reconversão urbanística das áreas portuárias e industriais. A classificação de áreas de lezíria e de zonas litorais torna o estuário do Tejo um espaço mais do funcional, de qualidade paisagística: «é a praça da metrópole».
Observa-se que as estruturas agrárias se desenvolvem em grandes espaços dotados de tecnologia avançada e localizados próximos das redes de comunicação internacionais. É o caso das culturas hidropónicas, um conceito de cultura sem solo (cultura de plantas que vivem na água com as raízes permanentemente mergulhadas em soluções nutritivas) em Palmela, é o caso de projectos turísticos em áreas de grande propriedade agrícola na Lezíria e é o caso de empreendimentos que vivem dos vazios «paisagísticos» e da localização junto à auto-estrada (Belas Clube de Campo).
A região saloia, eixo Sintra-Mafra e frente atlântica entre Ericeira e Serra de Sintra são de características rústicas e de ocupações difusas; o eixo entre Cascais-Sintra e Malveira ganha um interesse logístico e integra-se na grande área urbana que irradia de Lisboa-Sintra-Cascais. O crescimento induzido pelas auto-estradas origina ocupações que funcionam como pólos (Tagus Park, Oeiras).
No triângulo Montijo-Moita-Pinhal Novo prossegue o parcelamento da terra e a edificação; entre Azeitão e Palmela (em contínuo com o eixo Fogueteiro-Santana) há grandes espaços urbanizados de baixa densidade. E as serras de Sintra e Arrábida mais os estuários do Tejo e Sado permanecem as grandes referências geográficas.
Sofia Morgado diz que os vazios vão adquirir novos «significados» nas mudanças futuras associadas à indústria do ócio e à produção. A transformação dos espaços está cada vez mais dependente da construção de infra-estruturas do que das condições impostas pela água e pela terra.

AH
Fonte: «Protagonismo da ausência. Interpretação urbanística da formação metropolitana de Lisboa a partir do vazio»

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Frente ribeirinha, a área delicada de Lisboa
A regeneração da área das docas e a Expo’98 não eliminaram a barreira entre porto e cidade de Lisboa, diz o arquitecto Pedro Ressano Garcia. As transformações na frente ribeirinha permitem a ligação ao rio ou servem para tornar urbanos os terrenos portuários?
Pedro Ressano Garcia, autor de uma tese sobre a reconversão das frentes ribeirinhas nas cidades (de 2005, à espera de ser defendida na Universidade de Lisboa), afirma que a «barreira existente entre o porto e a cidade ainda é o grande problema do núcleo central de Lisboa».
Não é por acaso que o programa prévio da Trienal Internacional de Arquitectura de Lisboa se iniciou, entre 20 e 22 de Outubro de 2006, com um seminário sobre o estuário do Tejo e as frentes de água e uma visita para centenas de alunos universitários, conduzida pela Administração do Porto de Lisboa, a locais nas duas margens do Tejo que vão ser objecto de propostas de «requalificação» dos estudantes.
Área portuária no coração da cidade
É porque a frente ribeirinha, para qualquer habitante, é a «zona mais delicada de Lisboa», como sustenta Pedro Ressano Garcia – basta lembrar a controvérsia do Plano de Ordenamento da Zona do Porto de Lisboa (POZOR), de 1993/94, e o chumbo que mereceu há alguns anos – e porque muito se joga nestes terrenos virados ao rio.
A área portuária que está no coração da cidade «constitui hoje um espaço central em que programas e ideias podem vir a tornar-se em ícones contemporâneos», sustenta o arquitecto.
«Só uma vez na vida se tem a possibilidade de repor a condição antiga da cidade, suprimir as suas necessidades e instalações, trazer novo valor ao espaço público e arranjar soluções constantemente adiadas».
Mas a reconversão da frente ribeirinha é uma oportunidade para restabelecer a ligação ao rio ou para o desenvolvimento da cidade nos antigos terrenos portuários? «É uma diferença que parece pequena mas que é essencial».
Privatizar o espaço público
Segundo Pedro Ressano Garcia, «a venda de antigas áreas portuárias ao sector privado tende a privatizar os espaços públicos nas imediações dos novos empreendimentos» Mais: «Tende a adoptar soluções que redundam em condomínios privados».
Antigas zonas portuárias de cidades como Bilbau, Barcelona, Rio de Janeiro, São Francisco e Lisboa são «discutidas ao metro quadrado pelos promotores» e têm como consequência «protestos do público porque percebem que os [empreendimentos] não irão melhorar a qualidade de vida».
Ao contrário do que se poderia esperar, Pedro Ressano Garcia diz que o projecto urbano para os terrenos da Expo’98 e uma maior fruição do rio por parte dos lisboetas, incontestável com os novos usos dados aos armazéns e zonas portuárias desafectados, não contribuíram para acabar com a grande barreira que separa a cidade do rio. «Em Santos e Alcântara discute-se a alteração da linha dos comboios e das vias de circulação de trânsito intenso».
Jardins e equipamentos culturais ligados
Em vez disso, o arquitecto propõe que se reate a relação interrompida com o rio de outra forma: através da alteração da morfologia do terreno, «misturando arquitectura e planeamento do espaço público».
Pedro Ressano Garcia propõe a extensão dos jardins 9 de Abril (até à doca de Alcântara) e de Santos até ao rio para criar um espaço de uso público que crie outros fluxos para lá da intensa circulação automóvel.
O prolongamento do jardim de Santos seria ocupado por edificações localizadas ao longo de pequenos quarteirões e ruas estreitas e de sete vias principais perpendiculares ao rio; percursos para peões ligariam a cidade ao Tejo, «através de rampas entre vários níveis», numa recriação da geometria de Lisboa de antes do terramoto.
Na verdade, numa recriação, também, da fábrica medieval que ali desapareceu em 1755. Diferenças de cota no piso térreo das edificações iriam conferir «uma percepção diferente do terrapleno [de Santos]», retirando-lhe o carácter de superfície plana da ocupação portuária.
Por outro lado, Pedro Ressano Garcia imaginou um terraço, na Rocha Conde de Óbidos, que faz a ligação da parte alta até ao rio, através de dois níveis diferentes, das instituições e equipamentos da zona (sede da Cruz Vermelha, Museu de Arte Antiga (MNAA), o referido jardim 9 de Abril, o porto de Lisboa, a Gare Marítima Rocha Conde de Óbidos e o Museu do Oriente).
Sob esse terraço encontrar-se-ia um edifício, interiormente ocupado por áreas de exposição, comércio e serviços, que permite a ampliação dos museus existentes e de outros equipamentos que possam instalar-se; o estacionamento previsto tem acesso quer pela zona do rio quer pelo interior da cidade. «Autocarros de turismo podem parar sob o edifício, ao nível do porto». Toda esta área poderia vir a ser definida «como centro artístico e cultural. Desenhámos uma nova porta para a cidade e para equipamentos como o MNAA, que cria uma nova centralidade em Lisboa».
ANTÓNIO HENRIQUES
Um texto de Pedro Ressano Garcia sobre «Novas morfologias no porto industrial de Lisboa», que descreve a proposta para a zona de Santos e Alcântara, pode ser consultado na publicação «on-line» «Arte Capital» (www.artecapital.net).

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Na cidade dos 17 milhões
Vazios para parques urbanos

<SPAN>A zona metropolitana de São Paulo ocupa sensivelmente metade do espaço da Área Metropolitana de Lisboa (

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