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A verdade da Casa Malaparte...

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Uma história que para mim se afirmava oculta, improvável, inverosímil, até surreal...
Num texto de Rui Campos Matos percebemos a verdade por trás de um dos grandes ícones da arquitectura mundial...

...como se costuma dizer, fazendo todo o sentido numa referência a este caso...
....NÃO TENTEM ISTO EM VOSSAS CASA...

A Casa Malaparte - de Rui Campos Matos

de
Rui Campos Matos
(escrito para o Diário de Notícias da Madeira, secção “Pequenas Casas, grandes arquitectos)
publicado em 9 de Dezembro de 2006
____________________________________

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A Casa Malaparte

“Os arquitectos não servem senão para certas “formalidades legais”

No dia 14 de Março de 1938, contrariando o plano de ordenamento local, o município da ilha de Capri emitiu a licença de construção para uma casa na Punta Mussullo, um promontório inacessível e solitário sobre o Mediterrâneo. Requerente e proprietário: Curzio Malaparte - jornalista, escritor, ex-simpatizante fascista, acabado de regressar de um breve exílo na ilha siciliana de Lipari.
Arquitecto: Adalberto Libera - autor do aclamado palazzo delle poste em Roma, pioneiro do racionalismo italiano, homem próximo da elite dirigente do país.

Iniciada a obra, Malaparte decide alterar o projecto, incompatibiliza-se com Libera (que não regressará mais à ilha) e contrata um pedreiro local para o ajudar a construir “a sua casa”.
Eis-nos perante o pior dos pesadelos de um arquitecto: ver o cliente, com a ajuda de um pedreiro semi-analfabeto, alterar-lhe o projecto e construir aquilo que lhe apetece. Trata-se de um acontecimento relativamente vulgar. O que faz deste caso um caso invulgar - para não dizer mesmo extraordinário - não é o pesadelo em si, mas o que dele resultou decorridos sessenta anos: a casa é uma das mais veneradas obras do século XX, arquitectos, historiadores e críticos são unânimes em considerá-la uma obra prima…

Libera não chegou a passar pelo que teria sido um enorme vexame. Durante muitos anos foi-lhe atribuida a autoria do projecto. Morreu em 1963, precisamente na data em que Godard escolheu a Punta Mussulo como cenário para filmar “Le Mepris”. Sem o saber, o realizador iniciou o processo de celebrização da casa, não tanto por mérito do filme (que é já uma peça de interesse exclusivamente arqueológico) mas pelas célebres imagens que então correram mundo: Brigite Bardot deitada no grande terraço de tijoleira. Ao vê-las, quantos adeptos do telhado não se terão convertido à cobertura plana e suas enormes vantagens…

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Mas foram precisos outros trinta anos para que, numa investigação bem documentada, Marida Talamona viesse repor a verdade dos factos: os verdadeiros autores da obra prima tinham sido Malaparte, o escritor que pouco sabia de arquitectura, e Adolfo Amitrano, o pedreiro semi-analfabeto. “Os arquitectos não servem senão para certas formalidades legais”, afirmou Malaparte a dada altura, referindo-se à imprescindível licença de construção. “A casa que quero construir será uma casa como eu, o meu auto-retrato em pedra…” E assim foi.

Mas vamos ao que interessa: qual é, afinal, o melhor projecto, o do arquitecto ou o do seu cliente? Sobre esta questão nao tenho dúvidas, o de Malaparte é incomparavelmente superior. Longe das convenções da época, misteriosa, subtil, com o seu desmesurado terraço sobre o mediterrâneo, a casa ergue-se como uma altar destinado a uma só celebração: a da paisagem. Não encontramos nela nenhuma receita, nenhuma regra de escola, nenhuma outra inspiração que não os sonhos vagamente surrealistas e exibicionistas do escritor-jornalista. Deslumbrado com a natureza agreste e solitária da costa oriental da ilha, Malaparte construiu uma casa irrepetível, que pertence àquele promontório e a nenhum outro lugar do mundo, “uma casa como ele”. Quando comparado com ela, o projecto de Libera parece limitar-se a aplicar sem rasgo o receituário da escola racionalista: fachadas de sabor clássico, embasamento em pedra, ritmo sereno de cheios e de vãos, planta em dois pisos, escada, corredor servindo os quartos, tudo parece estar no lugar certo, tudo parece funcionar e, no entanto… que chateza! Que caixote! Tanto podia estar na Punta Mussullo, como em Alhos Vedros.

Que concluir então de tudo isto? Que as grandes obras de arquitectura não se fazem com fórmulas nem autores encartados? Que qualquer comendador extravagante e rico pode, com o auxílio providencial de um pedreiro, contruir uma obra prima na Ponta do Pargo? Que estamos perante uma excepção?
Eu prefiro dar a este caso uma interpretação bíblica: por vezes, Deus escreve direito por linhas tortas, dando lições de humildade a alguns arquitectos encartados que parecem carregar o rei na barriga, de tão seguros que andam de si e das receitas que aplicam. Quantos deles não terão já citado (dizer ‘copiado’ seria deselegante…) a casa Malaparte? O vermelho de Pompeia, a escada que “parece subir para o infinito”, a inusitada vela do terraço…

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E para terminar, ouçamos como Malaparte, numa tirada de génio, se refere à sua obra singular. Na visita que lhe terá feito Rommel antes da derrota de El-alamein, a dada altura, o general alemão, deslumbrado com o panorama que avistava da sala, terá perguntado ao escritor se tinha sido ele a desenhar aquela casa. “Respondi-lhe – mentindo – que a tinha comprado já construída e, com um gesto lento e largo acrescentei:
- A única coisa que desenhei foi a paisagem…”

Rui Campos Matos

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Pois Tiago... ou para pedreiro... Dá mesmo para pensar um pouco sobre a real função do arquitecto... mas também importa saber que nem todos os clientes serão como o sr. Malaparte...

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Estes textos que tens colocado são de facto muito interessantes. Confesso que desconheço o autor, pelo nome. Em relação a esta especificamente, quem já teve aulas com o arq Graça Dias com certeza terá ouvido contar esta história da casa Malaparte e das relações conturbadas entre o dono e o arquitecto Libera. E também, como o autor, não tenho dúvidas de que o projecto de Malaparte é incomparavelmente melhor que o do arquitecto. Isto porque a casa aparece na ideia de M. como aparece toda a arquitectura espontânea e a autoconstrução: com simplicidade de princípios e economia de meios. A evoluçâo mostrou que a arquitectura contemporânea acompanhou o "arquitecto" Malaparte e deixou cair em desuso a visão de Libera. De qualquer maneira, como referiu o Dreamer, é preciso ter em atenção que nem todos (para não dizer praticamente nenhum) os clientes são como Malaparte, um escritor de vanguarda, um homem de talento, iluminado, que tinha uma sensibilidade superior em relação ao que via, embora normalmente a mostrasse pela escrita. Permito-me apenas discordar do autor na referência ao filme Le Mépris, de JL Godard. Isto porque não concordo minimamente que ele seja hoje uma peça de museu (pelo menos não mais do que a própria casa que ele filmou). Isto porque o filme é ainda hoje uma referência e uma lição de cinema, e marcou naquele momento (juntamente com outros filmes do mesmo contexto) uma viragem e uma inovação na maneira de fazer filmes e na própria questão ideológica da actividade de fazer filmes. Além disso, Godard fez mais do que utilizar a casa como cenário, ele usou-a como poucas vezes vi arquitectura ser usada no cinema, com um olhar extremamente arquitectónico e sensível, transformando a casa num objecto altamente cinemático (aliás relembrando o estilo de Antonioni, que possui também um olhar extremamente arquitectónico). Como conclusão proponho a quem conseguir encontrá-lo o visionamento do filme "La Pelle" (realizado por Liliana Cavani em 1981, com Mastroiani no papel principal). É um filme baseado em escritos biográficos do próprio Malaparte (Mastroiani representa o escritor no filme) e também ele tem momentos passados e filmados na Casa Malaparte. Daqui penso que se compreenderão duas coisas: 1, a vida e sobretudo personalidade e motivações de Curzio Malaparte (e logo se entenderá que ele não era uma pessoa vulgar e logo a sua genial autoconstrução em Capri é única, irrepetível em qualidade por outros autoconstrutores) 2 o que Godard fez em 1963 com Le Mépris, em comparação com o que Cavani faz em 1981, no que toca a captar a arquitectura pela câmara. Daqui se poderá imaginar que a fama que a casa alcançou depois de 63 não teve apenas a ver com o facto de ter aparecido num filme, mas muito mais com a forma como apareceu. Continua a dar-nos deste material pf Dreamer

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Antes de mais obrigado, mas o mérito é todo do sr. Rui Campos Matos... apenas limito-me a encontrar os textos e transcrevê-los aqui... Enquanto encontrar mais material desta qualidade vou continuar a colocá-lo cá...

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