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Siza Vieira “Quase Que Não Vejo Outra Coisa Que Obras Minhas Destruídas”

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Siza Vieira “Quase que não vejo outra coisa que obras minhas destruídas”


Imagem por Ricardo Castelo

A marcha no interior do ateliê junto à Foz é lenta, como o ritmo das águas do Douro que se avistam das largas janelas do segundo andar. Agosto foi a banhos e a crise, que devia seguir-lhe os passos, não poupa talentos premiados. Na próxima semana, a Bienal de Arquitectura de Veneza rende mais uma homenagem a Álvaro Siza Vieira, que não irá a Itália receber o Leão de Ouro. A fisioterapia chama pelo braço direito, fracturado em Junho num descuido doméstico.

Vejo que o seu braço ainda não está a cem por cento depois do acidente de Junho.

Estou pacientemente a aguardar uma recuperação que sei que vai ser demorada. O braço direito, ainda por cima. Devo desaprender de desenhar, com uma paragem tão longa. Foi uma queda em casa, como normalmente acontece. Nunca é nos sítios perigosos.

Tem sido uma angústia esta pausa?

Bem, por um lado, não há muito trabalho. É geral.

A crise também chegou aqui ao ateliê?

Claro, desde há uns meses. Agravou-se este ano. Cada vez há mais contenção dos investidores, mais problemas com os construtores.

Nem o facto de falarmos do ateliê de um Pritzker, que agora receberá mais uma distinção, o Leão de Ouro na Bienal de Veneza, melhora o cenário?

Uma coisa não tem a ver com a outra. Por exemplo, as autarquias também não têm possibilidade de investir. É uma quebra geral de privados e públicos.
Até há uns anos queixava-se do oposto, de não ter mãos para as encomendas.
Eu tinha mãos para as encomendas, podia era ter de trabalhar muito mais. Agora, realmente está mau, e ainda pior para os jovens arquitectos. É muito difícil.
Já disse em outras ocasiões que são muitos, os arquitectos portugueses, quase tantos como em Espanha.
As escolas de Arquitectura, sim. Acho que estavam a sair recentemente dois mil por ano.

Que lhe parecem estes números?
Completamente desajustados. É realmente muito estranho. Espanha tem cinco vezes a população de Portugal. Isto está a sentir-se e de que maneira, agravado pela crise.

Comentou uma vez que a mais importante formação de um arquitecto é a informação do conhecimento. A aprendizagem e o ensino nesta área têm evoluído muito com o tempo ou mantêm-se relativamente constantes?

Tem havido mudanças e há uma coisa muito clara: um incremento, necessário, do trabalho interdisciplinar. Mesmo do ponto de vista da organização do trabalho, é muito mais complicado, há muita burocracia e uma multiplicação de regulamentos que, ainda por cima, mudam constantemente. A dificuldade é acrescida. Mas vem sobretudo pela complexidade que um projecto gradualmente vai tomando, umas vezes por razões compreensíveis, outras menos compreensíveis.

Que mensagem costuma passar a quem começa a trabalhar consigo?

Não é caso de dar conselhos. Tive outras condições. Neste momento, quem faz o curso de Arquitectura tem essa coisa importante da informação do conhecimento em doses multiplicadas em relação ao tempo em que me formei. Hoje, a internet põe à disposição toda a informação. É muito diferente o clima, e também não existem os constrangimentos que havia à actividade profissional.

Como lhe chegava a informação?

A partir dos anos 50 começou a haver um alargamento e havia duas razões para isso. Uma era a própria guerra. Houve uma paragem de muito do que era a informação, através de revistas, livros, etc.; e depois o isolamento em que o país se encontrava, a que era forçado. E também por razões económicas. Não havia bolsas de estudo, praticamente. Não havia programa Erasmus, que é uma das poucas coisas boas que noto na União Europeia.

Nesse tempo distante do Erasmus, como é que a família reagiu à sua opção académica?

As Belas-Artes tinham o curso de Pintura, Escultura e Arquitectura. A minha preferência ia para Escultura. Felizmente apanhei um momento muito bom de reformulação do ensino na escola de Belas-Artes. Acabei por me interessar mais por arquitectura que escultura.

Por influência dos seus mestres também, como Carlos Ramos e Fernando Távora?

Sim, entrou um novo director, o Carlos Ramos, uma pessoa muito inteligente e corajosa que criou um novo corpo docente. Além disso, havia acabado esse período que antes referi e havia uma relativa abertura. Aquilo que tinha sido uma luta inglória pela modernidade, asfixiada, passou a ser campo aberto.

É verdade que se considerava um aluno de Arquitectura fraquinho?

Não me considerava, consideravam-me [risos], e com razão, acho eu. Porque tinha voltado os meus interesses totalmente para a escultura e só para não ser desagradável com a família é que eu segui arquitectura. A escultura estava ligada à vida das artes, qualquer coisa sem futuro, vida de boémia. Não era um curso bem visto, que trouxesse confiança às famílias. De resto, também o curso de Arquitectura não era muito conceituado. Lembro-me que, durante muito tempo, algumas pessoas me tratavam por engenheiro porque tinham consideração por mim.

Engenheiro era mais prestigiante?

Havia poucos engenheiros, não havia uma tradição de grande protagonismo por parte dos arquitectos, que só começaram a ocupar, passo a passo, lugares importantes nas autarquias nos anos 40, quando o Duarte Pacheco começou a chamá-los para algumas câmaras, e praticamente só em Lisboa e no Porto. Houve uma grande procura de arquitectos após o 25 de Abril, com uma relativa descentralização que aconteceu. Todas as câmaras começaram a querer ter os gabinetes técnicos. Por outro lado, teve influência nisso o facto de ser muito difícil o acesso a alguns cursos, como Medicina ou Engenharia. Arquitectura era quase a última opção para quem não conseguia o acesso.
Já não se escolhe Arquitectura como última opção.
Porque se passou a falar bastante de arquitectura nos jornais e afins. Não com continuidade, mas há muitas notícias sobre arquitectura, às vezes com informação objectiva, outras não tanto.

Lembra-se quando se tornou motivo de notícia?

Não, mas logo nos primeiros tempos de trabalho, quando havia algum facto que envolvia a presença de políticos, como o projecto da Boa Nova, que veio cá um ministro, aí apareciam jornalistas. Mas o aumento da divulgação da arquitectura portuguesa, sobretudo para lá das fronteiras, foi depois do 25 de Abril – antes de mais, para lá da arquitectura, um interesse em geral de uma Europa que não sabia o que era Portugal. Houve muitos visitantes, entre eles arquitectos, que descobriram que também havia uma arquitectura portuguesa.
Já não precisa da presença de uma figura de Estado para ser notícia ou para trazer os jornais até si.
Não, mas também porque hoje, em muitas das autarquias, há notícias e polémica, e isso desperta o interesse pelos assuntos na ordem do dia.

O conflito é também ele uma nota muitas vezes comum à sua obra?

Às vezes sim, outras não [risos]. Polémica, críticas, opiniões diferentes, isso é normal que aconteça, e acontece.

Quando o acusam de privilegiar a estética em detrimento da funcionalidade, por exemplo, encaixa bem críticas como estas?

Encaixar, não encaixo, porque não corresponde à realidade. Como se pode dizer que a concentração do esforço está na estética quando a maior parte do que construí foi habitação social, condicionada por orçamentos apertadíssimos? Agora, a preocupação estética, isso é verdade. Como se pode ser arquitecto sem ter preocupações desse tipo?
Já mencionou a sua primeira obra – quatro casas que construiu em Matosinhos aos 21 anos –, como um dos projectos mais importantes, porque lhe deram desde logo a noção de que é impossível agradar a todos.
Essa foi a minha primeira experiência de construção e o primeiro contacto com a coisa real, com o mundo dos operários, toda a equipa que põe em pé um edifício. Nesse aspecto, marcou-me muito.

Essas casas ainda existem?
Existem e estão impecáveis.

Os habitantes actuais sabem que vivem nunca casa projectada por Siza Vieira?

Já não estou há muito tempo com eles, mas suponho que nem todos estejam vivos. Isso passa-se em 1954. Não tenho tido contacto com as famílias, mas sei que as casas estão lá. Na altura construía-se muito bem, era construção artesanal a cem por cento. Havia aqueles maravilhosos artesãos que em grande parte emigraram e fizeram um belíssimo trabalho em França e na Suíça. Nessa altura havia muito mais contacto entre os intervenientes. Hoje há muitos filtros, uma grande estrutura de hierarquias.

Essa estrutura lida bem com a sua presença no terreno, onde gosta de estar?

Em meu entender, o arquitecto deve estar dentro do assunto, mas nem sempre lhe é permitido actualmente. Vejo bem todos os cuidados da burocracia, no sentido do rigor, segurança, mas quando ela se torna uma máquina de emperrar… tudo o que sejam filtros criados entre equipas, isso lamento. Hoje há um especialista para cada coisa, o que é prejudicial para a qualidade da arquitectura.

Já abandonou algum projecto a meio em desacordo com o excesso de filtros?

Normalmente, pelo diálogo consegue-se chegar a consensos. A idealização de uma obra é uma história de compromissos. Os compromissos criam-se através de uma abertura de espírito. Agora, se realmente esse diálogo é cortado, não há nada a fazer. Mas poucas vezes me aconteceu isso: só me lembro de uma em que abandonei a obra.

Qual foi?

Não digo. Não vale a pena.
Apesar dos constrangimentos, dispensa a chamada liberdade total.
Liberdade total não há, e ainda bem que não há. Com liberdade total apenas podia fazer a minha casa, e a minha profissão não é fazer a minha casa.

Já fez alguma para si?

Tenho uma pequena casa que fiz quando estava a trabalhar em Évora, porque tinha de lá ir com frequência. Fiz a casa no sítio onde construía, de habitação de tipo colectivo. Serviu-me para ter um pouso quando chegava, para não ter de ir para um hotel, mas vou lá muito raramente. Aqui no Porto, não. Devia ser um cliente muito mau de mim mesmo.

Vive numa casa projectada pelo seu amigo Souto Moura, que vive no mesmo prédio.
Sim. Vim para essa casa por um acaso muito curioso. Houve uma desistência na construção do prédio, eram três clientes, e ele acabou por ficar com essa casa. Mais tarde houve outra desistência e disseram-me “porque é que não aproveitas, e tal”. Aquilo realmente é um sítio muito agradável e eu aproveitei.

Os chefes de Estado viajam em aviões diferentes por razões de segurança. O núcleo duro da arquitectura portuguesa não devia viver em prédios diferentes, pelo mesmo motivo?
[risos] Há muitos núcleos. Não é isso que me preocupa.

É mais fácil desenhar uma casa para si ou para quem não conhece?
Provavelmente, para os outros. Quando é para outros, há diálogo. Se for para o próprio, estará bem para o Fernando Pessoa dos heterónimos, mas para o normal das pessoas é mais difícil.

Como é a casa de Évora?

Pequena, num bairro construído em 1976 para cooperativas, com 1200 fogos. Comprei um lote baratíssimo e fiz um T2, em parte para serrações e em parte para introduzir umas coisas vantajosas mas que não eram aceites pelas pessoas. Era pôr as canalizações fora para evitar, quando há uma avaria, estar a partir uma construção. Era considerado feio e não consegui introduzir no projecto, mas na minha casa fiz isso e depois as pessoas até gostaram.

Resto da Entrevista disponível no iOnline:
http://bit.ly/PLDnZB

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