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Entrevista | Paulo Mendes da Rocha

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Mendes da Rocha
Portugal possui a mais extraordinária escola de arquitectura que se pode imaginar”
Elisabete Soares
25/09/11 18:00

Paulo Mendes da Rocha esteve em Portugal para apresentar os seus projectos, como o Museu dos Coches, em Lisboa.

Aos 83 anos, o arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha conserva a vivacidade de quem continua apaixonado pela vida e tem um grande prazer no que faz. Distinguido com o Pritzker ('Nobel' da Arquitectura) em 2006, confessa-se um admirador da arquitectura e dos arquitectos portugueses, considerando-se também um aluno dessa escola, tendo em conta as fortes ligações culturais entre os dois países.

O arquitecto disse um dia que "a primeira e primordial arquitectura é a geografia". O que é para si a arquitectura?
O projecto primordial do homem é dizer: vamos ficar aqui. O projecto está assim no homem quando escolhe um lugar para ficar. Sempre foi muito estimulante para mim pensar assim. Quando faço um projecto, convoco tudo o que é conhecimento, inclusive aquele que já possuía na memória. Na arquitectura, a convocação da memória é muito importante. A visão do desejo é a essência, talvez, da nossa condição no planeta. Sabemos que vamos morrer, como dizem os filósofos, mas sabemos também que não nascemos para morrer, mas para continuar. E uma coisa que Portugal conhece bem é a importância da transmissão do conhecimento. Portugal possui, de modo reconhecido no mundo inteiro, a mais extraordinária escola de arquitectura que se pode imaginar. E isso não tem nada a ver com quantidade, mas com a qualidade.

Sendo um dos grandes arquitectos do mundo, tem uma visão muito social e humanista. Quais são as maiores dificuldades de implantação destes princípios?
As dificuldades são essencialmente de carácter político no que respeita ao emprego de verbas, emprego dos capitais. Apesar de a demanda (procura) não ter sido de você - o arquitecto, no caso -, este desencadeia de tal maneira um processo que assanha a imaginação dos outros. Você não sabia o que estava encomendando. Aí começam a aparecer interesses paralelos, desvirtuamento. Porque uma coisa que nos persegue também nessa imensa complexidade da nossa existência é que justamente o que é bom é que é instrumento daquilo que pode vir a ser a degenerescência. O mal não degenera, já nasce mal. Mas se abre um horizonte promissor aparece uma gritaria assanhada, como coisa que só deve acontecer com um bando de pássaros. Ou, no nosso caso, é melhor dizer de macacos. Com um assanhamento geral é muito difícil gerir a fabricação, o aparecimento material da coisa que a imaginação engendra.

Aconteceu algo semelhante com o projecto do Museu dos Coches, de que é o autor?
Aparece sempre. Quanto mais comovente é o assunto, mais se multiplica. No projecto do Museu dos Coches tive uma grande emoção em ser convocado para uma coisa que é tão extraordinária. É um tesouro incomensurável o que representa esses artefactos, que nós chamamos de carruagens, os coches. Tanto que um dos aspectos mais curiosos é mesmo a estratégia da museologia: como mostrar isso? O que aparece como mais claro e possível é mostrar estritamente aqueles engenhos e estimular a imaginação sobre todo aquele universo. Todo aquele ouro, aquelas cores, aquele conjunto de incrível de artefactos do engenho humano.

Como está a decorrer a obra?
Está a ser muito bem feita. Está na mão de vários técnicos. O Nuno Sampaio (da Estratégia Urbana) que fez o projecto museológico está aí para provar, bem como a Bak Gordon Arquitectos que gentilmente aceitou a parceria em Portugal e o engenheiro Rui Furtado, da Afaconsult. Tudo o que é parque de exposições propriamente dito, serviços, fica num (edifício) anexo . Este edifício transformou-se num caso ‘sui generis', porque não é fechado, tem uma disposição espacial curiosa, com uma ponte que liga ao edifício principal, e constitui um portal para entrar na pequena praça interior. Vai ficar bem.

Tem uma opinião muito positiva da arquitectura e dos arquitectos portugueses?
Tenho uma profunda admiração, porque o nosso trabalho não é feito assim como quem contempla as coisas. Álvaro Siza representa um saber indecifrável. Agora também o Eduardo (Souto Moura). Um homem muito jovem que ainda tem uma capacidade de trabalho fantástica. É o que os outros chamam de acções exemplares.

Referiu-se a dois arquitectos que ganharam o prémio Pritzker, tal como o arquitecto em 2006. O que mudou na sua vida e na sua obra?

Do ponto de vista pessoal, tornei-me um homem muito perturbado. Em certo ponto, esses prémios tornam a vida num inferno. Eu sei que isso pode ser considerado um desaforo, mas isso não mudou nada. Eu fiz muita força para que não mudasse nada. Não vale a pena. Nós não conseguimos mudar da noite para o dia. Vou dizer uma coisa muito pessoal: eu não gosto de fazer conferências. O nosso trabalho são as obras. De qualquer modo há conferências e conferências. Aqui neste caso (ciclo de conferências ‘Do Conceito à Obra'), isto é mais uma confraternização de pessoas que se estimam muito. Eu sou muito bem recebido em Portugal, são muito generosos comigo e sinto-me muito bem. A parte interessante das conferências é que você sabe que grande parte da plateia são jovens estudantes. O que me preocupa sempre é não dizer nada que possa perturbar o justo andamento da formação dessas cabecinhas, digamos assim.


Um arquitecto modernista
Paulo Archias Mendes da Rocha nasceu em Vitória a 25 de Outubro de 1928. Pertencente à geração de arquitectos modernistas, foi galardoado em 2006 com o Prémio Pritzker, o mais importante da arquitectura mundial. Licenciou-se em arquitectura e urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, em 1954. É autor de alguns projectos polémicos e que constantemente dividem a crítica especializada, como o do Museu Brasileiro da Escultura e do pórtico localizado na Praça do Patriarca, ambos em São Paulo. É nesta cidade também que o arquitecto passa a maior parte da vida. Os projectos mais recentes são a Baía de Montevideu (Uruguai), a Praça do Patriarcado (São Paulo) e o Museu dos Coches (Lisboa).



in http://economico.sapo.pt/noticias/portugal-possui-a-mais-extraordinaria-escola-de-arquitectura-que-se-pode-imaginar_127103.html

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