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Arquitectura.pt


Patricia Amaral

Pode falar-se de uma arquitectura especificamente portuguesa?

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Olá a todos e peço, desde já, desculpa pelo amadorismo ignorante da questão que gostava de colocar aqui. Estou a fazer pós-graduação em Cultura Portuguesa Contemporânea e, neste momento, encontro-me no Módulo de Arquitectura. Assim sendo, sou, de facto, uma total ignorante no que diz respeito a estes temas (licenciei-me em Cultura Portuguesa, especializei-me em Tradição Oral, formei-me em Teatro...; ou seja: nada a ver). Estou a desenvolver uma reflexão sobre esta questão: poderá falar-se de uma arquitectura portuguesa? Pelo que estudei até agora, parece-me que as experiências dos anos 70 (nomeadamento dos SAAL) foram o que mais se aproximou de uma prática arquitectónica marcadamente nacional e específica da nossa sociedade. Parece-me que, a partir daí, a arquitectura se tem vindo a desenvolver de uma forma 'ocidental', mais que nacional. A questão dos materiais utilizados e da adequação aos espaços parece-me importante nesta reflexão, mas confesso que estou muito perdida. Podem dar-me uma ajudinha? Antecipadamente grata.

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Falando no presente, na minha opinião, não se pode claramente falar de um discurso mais português, talvez ainda se encontrem resquícios dessa procura em arquitectos da " velha guarda ", como o Siza Vieira. Já no geral, com a facilidade de obter informação via novas tecnologias , as referências "arquitecturais", se assim se pode dizer, são muito heterogéneas, com as diferenças de referências quanto à linguagem de arquitectura. Acho que não se pode falar de uma arquitectura claramente Portuguesa , mas numa mistura de referências pouco claras , não diria ocidentais, mas sim europeias ( França , Inglaterra, Holanda ... etc). Já na arquitectura ocidental , diria que está a ser influenciada pelas experiências " arquitecturais" do médio oriente. Mas claro , isto é a opinião de um estudante de Arquitectura Cumprimentos

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As operações SAAL, tiveram bastante importância na arquitectura portuguesa, pois tudo começou pelo planeamento de realojamento. Devido ás influências politicas, monetárias e sociais e até mesmo pelos próprios gostos dos futuros habitantes, os projectos foram sofrendo alterações ao longo da sua execução. O que deixa e acima de tudo, acentúa a diferença de arquitectura e por vezes ausência dela ao longo do país, tem haver com a zona geográfica em questão. Assim como a disponibilidade de dinheiros financiados, como dinheiros que os proprios habitantes acabaram por investir nas próprias casas, com a ansia de habitar nelas. O SAAL entrou numa altura em que as condições de vida eram mais que precárias, planeamento de esgoto era nulo, água quente um luxo e as familias viviam amontoadas em casas improvisadas interiormente, sem arejamento suficiente e luz. Acima de tudo veio servir as populações e zonas mais degradadas e afectadas pela pobreza. Muitos projectos estão complectamente disformes com o desenho de origem, pois como já referi a ansia de habitar uma nova casa foi tanta e os dinheiros andaram atrasados e as pessoas começaram a construir ou acabar de construir as próprias casas. Acabando assim por inevitavelmente durante a construção, atribuir o toque que mais lhes conveio. Há muitos factores que caracterizaram as SAAL, nomeadamente as escolas e suas consequentes influências em cada arquitecto... Nada como comprar o DVD ou então visioná-lo na Videoteca de Lisboa no Calvário. Também aconselho a dar uma vista de olhos no livro que pode encontrar na Ordem dos Arquitectos, na Biblioteca, Arquitectura Popular em Portugal, para perceber a transição da arquitectura de Portugal na época para os dias de hoje. O site Virtuvius/Arquitextos também tem alguns ensaios sobre a ocidentalização da arquitectura no geral, criticas etc etc... É claro que a oportunidade dos arquitectos trabalharem além fronteiras, concursos, revistas, conferências tudo isso contribuiu para tendenciar a uma certa globalização da arquitectura, tanto em Portugal como em outros países.

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Muito obrigada pelas respostas/opiniões! Ajudaram-me a confirmar algumas intuições e a iniciar um fio de raciocínio. Obrigada, Kaz, pela dica do Vitruvius. Uma outra questão (mais a título de curiosidade): Existe alguma arquitectura com características específicas, que se distinga das outras? Não do género 'arquitectura oriental', mas 'arquitectura polaca, ou venezuelana'...

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Quanto a isso já não te sei dizer... Se reparares todos os locais têm uma arquitectura bastante própria, pelo clima, factores sociais, materiais, custos e modos de vida etc etc. Quanto á polaca e venezuelana não te sei informar, pouco ou mesmo nada sei sobre arquitectura destes locais. Arquitectura que de momento está a mostras garras em abraçar a linha mais moderna e Contemporânea é o México, o Chile, isto falando de países mais pobres com tradições bastante enraizadas. Começa a ser comum vermos chegar projectos destes 2 locais, com uma linguagem bastante moderna e enquadrada com os dias de hoje, anunciando também uma certa influência de internacionalização. No fundo todos os países estão a sofrer transformações...Embora haja uns que se exprimam mais e outros que vão ganhando balanço aos poucos. Parece que não, mas os erasmus, os Midia, as conferências, os sites, blogs td isso comporta informação para a idealização de uma linha "perfeita" a seguir. Há projectos que são feitos para ser comidos e devorados com os olhos e mesmo que conste o texto ao lado, esse só será consultado quando o olhar já gastou toda a exploração que podia fazer ás imagens que se apresentam á sua frente.

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Para compreenderes as caracteristicas de fundo da arquitectura portuguesa contemporanea, deveras primeiro expreitar a historia por um momento. E para tal, nada melhor do que leres " A arquitectura portuguesa cha ", de George Kubler. Neste livro, publicado em meados dos anos 70, Kubler analisa rigorosamente a arquitectura portuguesa desde o sec. XVI, concluindo que existitem fundamentos proprios da nossa arquitectura, que no diferenciam de toda a europa. Deixo-te uma pasagem da minha tese

"A arquitectura chã, assim denominada por Kubler, foi a arquitectura que surgiu em Portugal no século XVI em resposta à fulgurante ardência manuelina. Racional, austera e desornamentada, esta arquitectura surge como uma manifestação do cansaço formal para com o período anterior. Kubler acentua o carácter experimental e a apetência para potencializar os meios e as técnicas locais, assim como a criatividade e o domínio tecnológico (e optimização da escassez de meios), como características que conformam a “ existência evidente duma expressão nacional” (KUBLER, 2005: 203).
Emancipando-se das normas académicas, este estilo apresenta-se como “uma arquitectura vernácula, mais relacionada com as tradições de um dialecto vivo” (KUBLER, 2005: 25), caracterizada pela clareza, ordem, proporção e simplicidade, carregada de sentimento e verdadeiramente vanguardista. Uma arquitectura modelar, de composições celulares, fascinada pelas “relações geométrica e volumétrica dos interiores com os exteriores e, por isso, com as possibilidades espaciais da parede em si, como membrana, canal ou passagem (…) como zona de circulação” (KUBLER, 2005: 30)."

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Oh Aqueminy, no pequeno texto que apresentas e esquecida a principal razão da existência da Arquitectura Chã, que e sem duvida a dinastia Flipina e o subsequente empobrecimento do Pais. a verdade e que muito pouco sobra dessa Arquitectura pois a maioria dela foi a posteriori "coroada" com ornamentação de inspiração barroca.

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Segundo Kubler, não é essa a justificaçao para a existencia da arquitectura cha, mas sim o cansaço formal, que conduz a busca de novas influencias. Kubler assume que a escassez de meios impera, mas assumea como condição permanente e nao transitoria (nao atribuida ao reinado dos felipes).
Tambem nao poderia postar o texto inteiro, correndo o risco de se tornar massador. Mas deixo mais um pouco..

Para Kubler as influências desta arquitectura são múltiplas. Sobre um pano de fundo de arquitectura militar emergem influências de um imaginário clássico (Renascentista e Palladiano), assim como elementos cuja origem se situa entre Espanha e Flandres. Kubler recusa-se a circunscrever um estilo como um espaço-tempo estático. Afirma a possibilidade de convergência simultânea de vários tempos e espaços desagregados, que, e ainda que formando um estilo, sugerem uma realidade de recriação contínua.

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Olá Patrícia Deparei-me com esse mesmo tema quando fiz a minha prova final do curso de arquitectura na FAUP (ainda apanhei o Távora) e a conclusão a que cheguei é de que não há nada que nos permita dizer que determinada arquitectura, ou maneira de fazer, é portuguesa e não espanhola ou filandesa. Reparaste que todos os exemplos que te deram para caracterizar algo "português" são do passado (arquitectura chã, SAAL), não da contemporaneidade? Aliás, uma das bandeiras da arquitectura "portuguesa" é logo o primeiro a desmistificar esse assunto, logo na primeira obra de referencia: "Este (meu) interesse pelo arquitecto filandês sobreponha-se à atenção pela arquitectura vernacular e pela difusa preocupação pela desmistificação de uma ideia superficial da arquitectura nacional" (...) "Já no projecto seguinte, a piscina, não vejo relação alguma, nem sequer em termos materiais, com a arquitectura vernacular portuguesa" Ãlvaro Siza, Imaginar a Evidência, pg. 34, 35. Só o Estado Novo, e um bando de pseudocríticos actuais, é que tentaram, sem sucesso, passar essa ideia absurda. O inquérito só veio provar que existem "tantas tradições como lugares". Em todo caso, terias sempre de provar que existe uma identidade nacional, antes de poder provar que determinado estilo ou tradição pertence a essa mesma identidade. Espero que tenha servido para alguma coisa bom trabalho

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Convem relembrar que o processo SAAL conclui que existem " tantas tradiçoes, como lugares", no que se refere a linguagem, e não ao processo... Kubler frisa sempre o processo inerente a arquitectura em portugal, nunca a linguagem. Não confundir tambem as caracteristicas e influencias de um dado arquitecto, com o modo como actua em determinado espaço-tempo. O Siza e influenciado pelos finlandeses ( Alvar Aalto maioritariamente), mas nao deixa de ser apelidado de " mais holandes que os holandeses" quando projecta o Bonjour Tristtese. O Espaço- Tempo é, para os arquitectos portugueses, mais determinante que as suas proprias influencias... E à cerca do pseudocriticos: não sei quem são as vossas referencias, mas aconselho alguma propencia nesses comentarios precipitados, pois podem ser confundidos com ignorancia...

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Caro Aqueminy O Bonjour Tristesse fica em Berlim. Claro que se podem falar de questões de identidade na arquitectura mas, de um modo geral não se lhes podes atribuir uma "nacionalidade". Hoje os clientes vem com imagens de revistas, e constroi-se com os mesmos blocos em todo o mundo.

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Caro Sputnik, O Bonjour Tristtese é realmente em Berlin, e a expressão na altura usada foi "mais alemao que os alemaes". Mas julgo que realmente ha caracteristicas k destinguem a arquitectura de portugueses em portugal... Embora a dita Escola do Porto se esteja a renovar, e os novos arquitectos sejam mais "internacionais" nos processos e na linguagem, as ultimas 3 gerações ( Tavora, Siza e Souto Moura ) elevaram grandiosamente a linguagem vernacular portuguesa...

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Crei que a expressão usada na altura foi "mais holandês que os Holandeses", mas em relação ao edifício "ponto e virgula" de Siza, na Holanda mesmo. Pode-se aplicar o mesmo ao Bonjour-Tristesse, e percebo a tua confusão. O que interessa é que Siza tem um processo que parte do princípio tirar o máximo proveito de todo o pré-existente: do terreno, de preservar a beleza que já existe, e, se for conveniente (dependendo do orçamento), explorar técnicas enraizadas na cultura das gentes que irão utilizar o edifício. As arquitecturas de cada sítio povoam os imaginários das pessoas desses mesmos sítios, e é um campo interessantíssimo de actuação. O problema dos arquitectos que têm um "processo de enraizamento", é que as suas obras dificilmente serão entendidas pelo grande público, pelo global. Escapam ao comércio das revistas e da opinião pública, e assim é que deve ser. Um cheirinho de moderno enraizado: Lina Bobardi

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Sem dúvida que nestes discursos, principalmente nos ligados á contemporaneidade, existe uma urgência de ligar o arquitecto á arquitectura como se essa fosse a única identidade referencial possivel. Não serão as condições dos lugares e dos sitios (cultura, geografia, meteorologia, etc) os geradores de identidade... Afinal o Siza foi á Holanda fazer arquitectura Holandesa...

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Como disse, a minha opinião é a minha opinião e não tento impingí-la a ninguém. O facto de que alguns arquitectos brilhantes desta geração terem conseguido este processo de trabalho não nos permite falar de uma "arquitectura portuguesa contemporânea". É so isso. Só tenho pena que a Patricia tenha abandonado esta discussão. Podia dar-nos pistas do que se passa em outros campos do conhecimmento, que não só a arquitectura.

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já agora, arqrosadasilva "Não serão as condições dos lugares e dos sitios (cultura, geografia, meteorologia, etc) os geradores de identidade..." Concordo. Mas de que forma? Pensemos na arquitectura do povoamento dos açores, por exemplo. Numa só rua podias encontrar casas oriundas de diversas regiões do país: casa do Norte com dois pisos, casa alentejana, baixa sem janelas. Aí é a cultura que prevalece sobre o clima e a geografia? Então a arquitectura é eminentemente cultural? Mas depois ao longo dos anos os açorianos vão introduzindo as mesmas modificações nas casas: a falsa onde moram os 20 filhos, os fornos de pão para poder fazer pão em casa. Aí, o modo de vida de uma comunidade, que deriva em parte da geografia, que cria a tradição? É dakelas questões que dava para ficar a falar noites inteiras.

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Realmente, esta é uma discussão antiga, que de certo, não ficou sanada com a publicação do inquérito no anos 60... acho que as opniões debitadas aqui neste forum, virão a representar e em parte já representam, boa parte do pensamento actual sobre esta questão.

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Boa Tarde, Eis como vejo a coisa, admito que possa não ser a melhor das visões mas aqui vai: A Arquitectura de cada região é o resultado de milhares de anos de adaptação. Não existe uma arquitectura Portuguesa na sua génese, mas várias arquitecturas regionais que dão resposta às várias necessidades (de abrigo ao clima e aos vários agentes agressores, humanos e naturais). Como cada região tem diferentes variáveis a que é necessário dar resposta, temos diferentes resultados na forma materalizada de construções. Acrescente-se a isto o facto de cada região ter diferentes materiais passíveis de serem utilizados na construção, o que por si só já seria elemento suficientemente identificativo de cada area. Podemos incluir neste processo técnicas introduzidas em cada região por cada cultura que a invadiu ao longo dos tempos. Temos assim até à relativamente pouco tempo, diferentes regiões com diferentes Arquitecturas tradicionais cuja origem se pode situar sobretudo em coisas bem práticas. É com a revolução nos transportes que começam a poder chegar a cada região- (de forma genérica, podemos excluir monumentos e edifícios estatais que fogem sempre à regra pois são resultado normalmente de importações e manifestação do poder)- materiais de construção exteriores à mesma. Esta capacidade de transporte e a diminuição gradual dos custos da mesma permitiu então a partir de uma certa altura da história a adulteração de tecnicas e estéticas tradicionais com os resultados finais que hoje podemos ver. No fim deste processo temos uma implícita perda de identidade regional tal como a conhecemos desde "sempre" e a dita liberdade de abordagens que caracteriza o leque de hipóteses que um Arquitecto moderno ou simplesmente "alguém" tem quando decide fazer um projecto de um edifício ou simplesmente começar a construir. Admito o simplismo um pouco redutor desta abordagem uma vez que existem de facto outras influencias, mas na sua essência acredito que seja esta a forma como se desenrolou o processo gradual de descaracterização da dita arquitectura tradicional.

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Acrescentaria que do ponto de vista da abordagem puramente conceptual o que temos é por força da globalização uma espécie de miscigenação de referencias. Algumas destas referencias integradas no genérico Estilo Internacional são bastante atraentes conquanto desligadas das nossas puras referencias tradicionais. Por outro lado a pergunta que importa colocar é se existe uma lógica no caminho ou apenas caminhamos para a pura mistura de abordagens sem qualquer lógica. As referencias claramente visíveis na geração acima, como Siza Vieira ou mesmo Souto Moura, existem apenas por proximidade geracional e cronológica da grande cisão (modernismo). O distanciamento das mais recentes gerações destas referencias se por um lado limita a base do pensamento "tradicional" por outro abrem novas portas. A coerência geral, essa... tirando algumas intervenções mais alargadas está irremediavelmente perdida, para o bem e para o mal...

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