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Veneza entre o esplendor e a ruína

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Veneza entre o esplendor e a ruína

A cidade prodigiosa está gravemente doente de um vírus chamado excesso de turismo que ela alimentou de maneira irresponsável e agora a empurra para a decadência. Clique para visitar o canal Life & Style.

António Guerreiro (texto) Giacomo Cosua (fotografias)

17:23 Quinta-feira, 18 de Fev de 2010 Última actualização há 18 minutos

Quem, na condição de visitante, se dispõe a escrever sobre Veneza, ou é insensível ao ridículo de sucumbir ao mais estereotipado impulso literário ou deve começar por pedir desculpa. Visitá-la e falar dela confere distinção - a distinção snobe dos estetas. Comecemos, pois, por pedir desculpa e apelar à benevolência do auditório, prometendo não fazer literatura apologética nem dar razão a quem acha que a palavra kitsch errou na pátria e devia ter nascido veneziana. Por mais difícil que seja, vamos ignorar a Veneza de Goethe ("obra grandiosa e veneranda"), fechar os olhos à teologia veneziana de Proust ("lugar cimeiro da religião da Beleza"), e resistir ao esteticismo mórbido que Thomas Mann experimentou na "mais inverosímil cidade do mundo".

Partamos então em busca de uma Veneza decadente, acumulação grotesca de problemas que advêm da sua prodigiosa construção e da condição de suprema cidade-museu devastada pelo turismo, invadida pela fancaria. Não é difícil encontrá-la. Quando entramos de comboio, pela ponte inaugurada em 1865, que a tirou da condição insular, conseguimos vislumbrar a mítica Serenissima e ver as silhuetas de um esplendor intacto.

Mas mal saímos da estação ferroviária dissipa-se a serenidade, e à teatralidade congénita da cidade sobrepõe-se um espectáculo muito menos elegante e sumptuoso: começa ali (ou ao lado, no Piazzale Roma, onde desembocam os autocarros) o percurso labiríntico que conduz à Praça de São Marcos, supremo lugar de peregrinação para os mais de 50 mil visitantes diários; e ali se inicia a exibição de uma cidade convertida à monocultura do turismo, adaptada às necessidades e às solicitações de quem a atravessa por um ou vários dias, onde já mal se vê o que ainda resta de vida autóctone.

Jovens fogem da cidade

Annalisa de March, professora

Annalisa de March, veneziana, professora do ensino básico, exprime assim este sentimento de espoliação comum à grande parte dos seus concidadãos: "É triste dizê-lo, mas já não os vejo como pessoas, só os vejo como turistas". Isto é, como uma massa informe que avança todos os dias a partir das nove da manhã e recua ao fim da tarde, apropriando-se de um território que não é como a rua ou a avenida das outras cidades. Annalisa formula essa relação do veneziano com o espaço exterior através de uma frase consagrada pela tradição: "O meu quarto é o meu apartamento mas a minha casa é Veneza". Toda a cultura veneziana da representação e da máscara tem na sua base esta fronteira muito ténue entre o espaço público e o privado, entre a rua e o interior. E, referindo-se às consequências mais ruinosas do turismo de massa, Annalisa fala da fuga dos jovens e do envelhecimento dos habitantes da cidade; da expulsão, para Mestre (a cidade que fica em terra firme, antes de se entrar na laguna) do 'povo' veneziano; da multiplicação de lojas para turistas. E conta que há uma farmácia em Veneza que utiliza um mostruário electrónico para dar a informação do número de habitantes da cidade. Tal obsessão explica os recorrentes vaticínios acerca do ano em que Veneza deixará de ter habitantes. E, no entanto, confrontada com um ambiente calmo como é a segunda quinzena de Janeiro (a época baixa em Veneza limita-se ao período que vai do início de Janeiro até à semana anterior ao Carnaval), Annalisa confessa sentir que é triste a cidade sem turistas. Quando não há turistas não há nada, porque a população da cidade é escassa e poucas são as actividades não subordinadas ao turismo. Extinguiu-se todo o tecido produtivo tradicional, ligado aos ofícios, ao artesanato, às pequenas empresas.

Salvar Veneza foi uma palavra de ordem universalmente difundida quando, em 1966, houve inundações e o fenómeno da acqua alta atingiu o nível inusitado de 1,90 metros (a partir de um metro acima do nível do mar, as partes mais baixas da cidade começam a ficar submersas). Tratava-se então de arranjar uma solução para a fragilidade desta construção humana plantada sobre as águas e sobre pântanos, onde cada obra de arquitectura foi sempre, ao mesmo tempo, obra de conquista de território, de superfície. Aqui, nunca houve terra firme: nenhum edifício pôde ser construído sem se construir também o solo.

Mas, actualmente, salvar Veneza significa também responder a uma outra urgência: a de encontrar um ponto de equilíbrio entre a satisfação das suas necessidades económicas e a presença avassaladora e única do turismo. A hipótese de introduzir uma limitação às entradas, impondo aos não-residentes a obrigação de adquirir um passe de ingresso ou uma reserva, já chegou a ser discutida publicamente. Uma cidade superlotada, ao ponto de, durante longas horas, não se conseguir entrar nem sair, com as ruas e as duas ligações (a ferroviária e a rodoviária) completamente entupidas, é algo que já ocorreu, com dimensão assustadora, num fim-de-semana prolongado de Maio de 2008.

Para percebermos a que se referem os gritos de alarme e as exortações ao salvamento de Veneza, convém conhecer alguns números: a cidade tem actualmente 60.000 habitantes. Em 1950, ano de uma expansão demográfica só comparável à da segunda metade do séc. XVI, tinha 184.000. A hemorragia anual é de cerca de mil habitantes. Os utentes diários da cidade são à volta do dobro dos residentes; os mais de 21 milhões de turistas de 2008 representam um aumento de 9% em três anos; os alojamentos para uso turístico aumentaram 450% de 2000 a 2006 (graças ao fenómeno do bed & breakfast) e o número de camas duplicou nos últimos dez anos. Mas há ainda outro número temível: o do aumento, para o dobro, nos últimos dez anos, do movimento turístico do porto de passageiros.

Veneza tornou-se o primeiro destino italiano de navios de cruzeiro que oferecem o mais apetecível programa de viagem turística: a possibilidade de ver a Praça de São Marcos de um miradouro flutuante que se ergue à altura das torres mais altas da cidade. Os efeitos são bem visíveis, mesmo para o visitante leigo: enormes massas de água geram correntes intensíssimas que se propagam até aos canais mais internos. Pode parecer fácil tomar uma medida que afaste estes colossos flutuantes, mas quem ousa prescindir do movimento turístico do porto que, em 2007, foi de um milhão e meio de passageiros?


Giorgio Mastinu, galerista

Giorgio Mastinu, arquitecto, a viver em Veneza há 24 anos (desde que veio da Sardenha para estudar aqui arquitectura) lembra como o turismo de massa, a partir dos anos 80, mudou completamente o ambiente cultural e intelectual da cidade. E enumera factos: hoje só há uma sala de cinema e não tem público, enquanto em 1985 existiam cinco salas; a bienal de música, tão importante nos anos 50 e 60, já há muito que não existe; O Palazzo Grassi, assim como a Punta della Dogana (a ponta triangular entre o Grande Canal e o Canal da Giudecca), restaurada pelo arquitecto japonês Tadao Ando e inaugurada em Junho do ano passado como grande centro de arte contemporânea, estão entregues à Fundação do grande magnata francês François Pinault, que transformou estes dois lugares de exposição em vitrina da sua colecção privada, subtraindo-os a qualquer programa dinâmico na relação com a cidade. E Giorgio Mastinu conta que a Fundação Pinault, quando assumiu a gestão do Palazzo Grassi, hasteou no exterior a bandeira da Bretanha. E
o relato dos desvios a que foram sujeitas algumas instituições culturais não acaba aqui: o Palazzo Fortuny foi também entregue a um magnata belga.

Em oposição a este vazio cultural (apesar do presidente da Câmara ser um eminente filósofo: Massimo Cacciari), Mastinu lembra que nos anos 80 o arquitecto Vittorio Gregotti lançou a ideia de Veneza como a cidade da "nova modernidade". Pouco mais de uma década depois, em 1993, já outro nome importante da Escola de Arquitectura de Veneza, Manfredo Tafuri, substituía a visão utópica por um diagnóstico cruel: Veneza apresentava-se-lhe como um "cadáver em liquefacção diante dos nossos olhos". Citando esse texto, um dos mais ilustres habitantes actuais da cidade, o filósofo Giorgio Agamben, escreveu há dois anos que Veneza tinha passado à fase seguinte: já não a do cadáver, mas a do espectro, isto é, "a de um morto que surge inesperadamente, de preferência a horas nocturnas".

Imitações de máscaras "made in China"

Para dar uma ideia do poder devastador do turismo de massa, Giorgio Mastinu conta o que aconteceu recentemente na zona onde vivia. Era uma zona ainda não integrada nos circuitos obrigatórios (porque, no labirinto veneziano, há um fio que conduz por vias inescapáveis e tudo o que é lateral a elas fica por conta de uma minoria rebelde e curiosa).

Mas assim que começou a ser sinalizada nos principais guias, tornou-se lugar de passagem dos turistas e o comércio que servia predominantemente as necessidades dos residentes foi substituído pelas lojas de ricordi: máscaras, vidros, artesanato, chapéus e camisolas de gondoleiro. Tudo o que é necessário para garantir às hordas de apaixonados por Veneza que não regressarão a casa sem um pedaço da cidade, mesmo que seja uma contrafacção reles fabricada noutro sítio, como passou a ser regra. É assim o círculo infernal descrito por Mastinu: o comércio e os serviços para residentes é substituído por comércio e restaurantes para turistas, os preços da habitação sobem vertiginosamente (ou esta torna-se mesmo inexistente) e tornam-se inacessíveis.

Simultaneamente, tudo se conforma à prática turística, o que convida os habitantes a abandonar a cidade, sobretudo os jovens, dando ainda mais força à razão que os expeliu (no círculo vicioso, as causas tornam-se consequências e vice-versa). E assim se instaurou um mercado do imobiliário que exclui a residência e privilegia a aquisição por parte de estrangeiros ricos, para utilização pontual ou sazonal, ou para o único comércio rentável que é o turismo.

O triunfo em toda a linha da actividade única que domina os sectores da cidade ficou bem patente na lei que, há quase uma década, permitiu a transformação de casas de habitação em albergues e bed & breakfast. O efeito foi imparável e nasceram em todo o lado esse tipo de alojamentos, assegura Cristina Toso, outra veneziana com quem falámos, que lamenta a "perda de identidade" de Veneza. E, por perda de identidade, não entende apenas o desaparecimento daquilo que constituía o centro do tecido produtivo da cidade: as manufacturas e as pequenas actividades comerciais. Hoje, diz Cristina, até as máscaras e os vidros ditos de Murano (uma das ilhas da laguna) vêm da China. E da China, acrescenta, vêm compradores das lojas, dos restaurantes, das pizarias. E assegura que é o dinheiro chinês que se está a apoderar do comércio veneziano (Giorgio Mastinu também aludiu a este facto). Uma trattoria italiana com gerência chinesa é já um facto vulgar.

Caminha-se assim para uma cidade em que tudo é falso. Nem sequer já os gondolieri são de Veneza. O que não deixa de ser uma situação cómica, se pensarmos que há uns anos Cacciari queria exigir direitos, em nome da 'marca Veneza', pelas réplicas venezianas construídas em Las Vegas. Eis a ironia máxima da reversibilidade: Las Vegas que imita Veneza que imita Las Vegas.

Cristina Toso dá um exemplo do que é a quintessência veneziana dos últimos tempos: em todo o sestiere de São Marcos (a parte da cidade em torno desta praça) já não há uma única loja de bens de primeira necessidade. É aí que se instalaram as grandes marcas da moda italiana (Armani, Prada, Gucci), não porque o volume de vendas compense o custo astronómico das rendas, mas para estarem presentes, para fazer de Veneza a sua montra. Se é para exibir, Veneza tem vocação de séculos.

Centro histórico é a cidade toda

Para a degradação da vida da cidade a todos os níveis contribuiu o enfraquecimento do ambiente universitário. Até aos anos 80, o Instituto Universitário de Arquitectura de Veneza (IUAV), pelo seu prestígio, atraía estudantes de todo o país que se instalavam na cidade. O IUAV não era apenas uma escola de Arquitectura e um centro de irradiação artística: era um laboratório de pensamento. Giorgio Mastinu explica assim o auge e a queda da Universidade: na II Guerra, quando a Itália estava a ser bombardeada, Veneza foi um refúgio tranquilo de intelectuais, ao ponto de se dizer que era a capital cultural da República de Salò. Esse ambiente permaneceu no pós-guerra, durante décadas, até que todas as cidades do Norte da Itália começaram a ter universidades com cursos de Arquitectura. A esse enfraquecimento devido à concorrência, juntou-se um outro factor: viver na cidade deixou de ser comportável para estudantes, que tiveram de seguir o movimento pendular de entrar de manhã e sair ao fim da tarde, regressando de comboio a casa, onde sempre viveram, ou à residência que encontraram fora de Veneza (por exemplo, em Mestre) a preços muito mais razoáveis.


Cristina Toso, professora

Veneza tem a característica única de ser toda ela centro histórico. Quem é empurrado do centro não vai para uma periferia mas para fora da cidade. Pessimista, Giorgio Mastinu prevê que o futuro de Veneza é o de ser o centro histórico das cidades mais próximas: Mestre, Pádua, Treviso. Nesta projecção pessimista, o centro histórico deixou de ter a vida diversificada de uma cidade autónoma: é apenas um museu de onde foi banida a vida, e o património artístico e arquitectónico surge congelado no seu valor de exposição.

Francesco Indovina, professor no IUAV, desenvolveu o conceito de "cidade difusa" para explicar o possível lugar de Veneza nesta constelação. Mas a sua hipótese é muito mais optimista. Na sua ideia de cidade difusa (de um arquipélago de cidades que formam um sistema), o lugar de Veneza não é unicamente o de museu e residência dos espectros. Este professor concorda com os diagnósticos que identificam a doença de excesso de turismo e não relativiza a sua gravidade. Mas o seu plano é o de que se controle o turismo, deixando de viver exclusivamente dele e não permitindo que ele absorva todas as actividades. Por isso, propõe para Veneza um conjunto de actividades imateriais que implicam fazer do Arsenal (uma grande superfície desactivada, outrora ocupada por indústrias militares), em vez de um grande hotel de luxo, como está previsto, uma "cittadella della scienza"; e propõe a requalificação da laguna e de Porto Marghera, que foi a zona industrial de Veneza, situada ao lado de Mestre.

O problema da acqua alta

Colocar a laguna na vanguarda de uma gestão ecologicamente correcta requer, diz Francesco Indovina, finalizar os trabalhos de construção do MoSE (acrónimo para Módulo sperimentale elettromeccanico), isto é, o projecto para salvar Veneza que consiste num sistema de diques móveis construído nas três bocas de porto (onde o mar entra na laguna: Lido, Malamocco e Chioggia), cuja primeira pedra foi lançada em 2003. Este projecto tem sido fortemente contestado, quer pelos seus custos elevadíssimos, quer pela convicção dos seus detractores de que só provocará mais danos. E não são apenas os ecologistas que estão na frente desta luta.

O fenómeno da acqua alta, que até aos anos 60 não foi preocupante, tornou-se entretanto um problema, quer pela sua frequência, quer pelos níveis elevados que a água atinge. Em meados de Janeiro, Veneza tinha vivido quase um mês seguido de acqua alta, situação inédita que pôs à prova a proverbial camona dos venezianos, isto é, aquela calma e lentidão que exaspera os que vêm de fora. Os que se habituaram a viver nesta cidade contranatura aguentam os contratempos da subida da água com bom humor. E reagem às marés cheias de turistas com pragmático cinismo.

Ouvindo os nossos interlocutores, aqueles que comparecem nesta reportagem mas também outros que ficaram de fora, parece que à primeira oportunidade abandonariam Veneza. Mas interrogados directamente acerca de tal hipótese, todos pronunciam um rotundo "não": que não seriam capazes de viver numa cidade com carros e com periferia, e onde sair à rua não fosse entrar num palco com um cenário magnificente. Mesmo que esse cenário seja o objecto ausente do desejo melancólico: o desejo de uma Veneza que já não existe.

Publicado na Revista Única do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

in http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/566060

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