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A Educação e a Arquitectura

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A Educação e a Arquitectura

Um professor escreve sobre a relação da arquitectura com a educação. É uma visão exterior e leiga da arquitectura. Deixo aqui um artigo no qual ainda não tive oportunidade de ler e de analisar mas abro aqui uma discussão sobre o assunto para quem quiser deixar uma opinião e reflectir sobre este tema.

Da Má Arquitectura Como Causa do Insucesso Escolar

Posted by Paulo Guinote under Educação, Quotidianos, Teorias

Não, não estou a brincar. É verdade que me apetece desopilar, mas o assunto é sério e fundamentado. Acho eu, pelo menos. Mas exemplifico.

Ontem terminei o dia com 90 minutos na sala 26 da minha Escola. Tal como a 25, a 24 e algumas das 30’s no outro extremo do bloco, esta sala tem a felicidade de dispôr de luz solar directa, desde meados de Abril, desde aí as 11 da matina até quase ao final do horário lectivo. O que se traduz, apesar das cortinas feitas para completar o serviço que as persianas das janelas não cumprem devidamente, mesmo quando estão operacionais, em temperaturas que a partir de Maio ultrapassam em muito os 30º.

Em contrapartida, do outro lado, as salas 13, 14, 15, etc, não apanham qualquer sol durante todo o Inverno, o que as torna ideais para conservar comida sem recorrer ao frigorífico ou mesmo a qualquer modelo moderníssimo de arca congeladora. Também é desse lado da Escola, que corresponde à entrada principal, que existem algumas árvores frondosas que fazem sombra razoável (do lado sul, o solarengo, nem vê-las). O que tem as suas vantagens. Não me ocorre assim mais nenhuma do que serem razoavelmente frescas no Verão, mas certamente que existirão.

Sei que não vivemos num país rico, sei que muitos estabelecimentos escolares foram feitos com os meios possíveis, com as tipologias que pareceram mais adequadas, nos terrenos disponíveis. Mas podia existir um mínimo de atenção a detalhes que influem directamente no conforto dos alunos – não falo dos docentes, isso é malta que devia conseguir trabalhar mesmo com correntes nas galés – e nas condições em que desenvolvem o seu trabalho.

Era pedir muito que tentassem, pelo menos, que a disposição das salas seguissem uma orientação mais razoável – preferencialmente nascente/poente – ou que existisse algum cuidado na forma de isolamento das salas? Afinal falamos de muitas escolas já feitas no final dos anos 80 e anos 90, não em mil novecentos e tropeça o passo. Os custos seriam assim tão inflaccionados? E seria coisa fabulosa que com a criação da Escola se definissem áreas de arvoredo que permitissem compensar a incidência solar?

Para não falar de outros casos mais divertidos como aquela tipologia – se eu me esforçasse encontrava a designação, mas agora não me apetce – de origem nórdica, em que os blocos são todos envidraçados, com um mini-pátio interior e a possibilidade de acesso interior a todas as salas através das outras. Aqui pelas minhas bandas há várias, criadas na viragem dos anos 70 para os 80, antes da tipologia dos rectângulo de cimento armado. Numa onde leccionei há cerca de uma dúzia de anos até os encaixes para os skis mantiveram do plano original. E que tão agradável que era ter aquele vidrado todo durante o final da Primavera e os alvores do Verão – muito útil na Finlândia ou na Suécia – como modo de demonstrar como se consegue formar facilmente o “efeito de estufa”. Só lamentava não leccionar Geografia ou Ciências. Em História só tinha alguma aplicação quando ainda ensinava as diferenças climáticas com que os navegadores portugueses se confrontaram, pela altura dos trópicos, nas viagens da Expansão. Já no Inverno, o
sistema de escoamento, ao redor dos blocos, pensado para a neve e chuvas escassas, entopia a cada bátega acima da média. Um par de anos antes dava aulas numa Secundária cujo bloco mais distante tinha, na visão humorística de todos os seus utentes. lavagem automática do quadro. Do de ardósia e também do eléctrico, que o melhor é não acender a luz senhor professor, como avisava a preocupada funcionária logo pelas 8 da manhã, quando as manhãs de Inverno estavam menos radiosas.

Mas como estes há muitos exemplos da triste falta de qualidade das nossas construções escolares. A minha velha Secundária, provisória em 73 quando começou a funcionar está decrépita quase 35 anos depois e lá continua. Em outros locais, chegam a dar-se aulas em contentores por falta de salas. Se outrora haveria a desculpa dos meios ou da pressa em construir a baixo custo, agora já fica mais ridículo que surjam directivas que determinam o número de alunos por sala apenas com base na área da dita. Eu gostava de ver certos burocratas a receber uma turma de (pré-) adolescentes transpirados de uma bela jogatana de futebol apressado no intervalo, entre a ida ao bar e o pedido para entrar mais tarde para passar pela casa de banho, numa sala que já se encontra pré-aquecida a 30-35º desde meio da manhã. Ou a recomendar a instalação de salas de informática em espaços com janelões enormes que, com a sua luminosidade, tornam quase invisíveis as imagens nos monitores, obrigando a manter tudo fechado e atabafado.

Quando falamos em insucesso escolar, fala-se muitas vezes em números em quantidades. Número de professores, número de alunos, número de repetências, número de salas, número de computadores; gastos com isto, aquilo e aqueloutro; fala-se em salários, em percentagens do PIB. E por aí a diante. Na banda larga, nas tecnologias maravilhosas. Só se esquecem de perguntar se nas salas as tomadas funcionam.

Raramente se fala em qualidade. Em conforto. Em condições agradáveis de trabalho. E quantas vezes as condições são lastimáveis, mesmo se a sala tem não sei quantos metros quadrados e o número certos de mesas e cadeiras. Alguém se preocupa em comparar a qualidade das nossas escolas e a sua adaptação ao contexto local (clima, terreno, etc) com a qualidade das escolas finlandesas, suecas, dinamarquesas, suiças, alemãs ou austríacas?

Com esforço e imaginação lá se arranjam uns parcos aquecedores no Inverno, que mal aquecem um canto da sala. Dinheiro para vidros duplos? Não há. Para reparar as persianas sempre que necessário? Nem pensar! Ventoínhas? Brincamos, não!

Mas lá continuamos nós, cantando e rindo. Baseando a demagogia nos números que interessam, esquecendo a alegadamente difícil medição dos critérios de qualidade. que porventura os próprios alunos não conseguiriam ajudar a fazer, por não terem padrões comparativos.

Passam hoje 33 anos sobre o 25 de Abril de 1974. Muitas foram as conquistas e os ganhos. Negá-lo seria de uma hipocrisia total. Mas muito foi também o que ficou por cumprir. E essas promessas de desenvolvimento, de convergência, de europeização, foram feitas exactamente por aqueles que estão no poder, ou pelos seus directos antecessores, que gnos governam há 30 anos. Quando seria de esperar que, depois da fase da expansão da rede escolar, se passasse para uma fase de consolidação dessa expansão do ponto de vista da qualificação do parque escolar, o que assistimos é exactamente ao inverso. Ao desinvestimento e à delegação ou “transferência de competências”.

Temos escolas melhor equipadas do que há 20 e 30 anos? Temos, certamente. Temos mais livros nas bibliotecas, computadores (antes não existiam, sequer) e outras maravilhas da pós-modernidade. As paredes é que continuam as mesmas, com mais um par de décadas de uso em cima e eu garanto, apostando simples contra dobrado, que muitas das cadeiras ainda em uso na minha velha Secundária são as mesmas que usávamos há mais de 25 anos.

Mas o que vale é agora vai existir uma empresa que vai gerir parte do parque escolar do Ensino Secundário e vai resolver tudo isso que o ME não consegue resolver por si. E o que essa empresa não resolver, resolvem as autarquias, claro está.

E é nesta parte da fábula que entram o coelhinho da Páscoa, mais a rena Rudolfo em alegre parceria empresarial.

IN http://educar.wordpress.com/2007/04/25/da-ma-arquitectura-como-causa-do-insucesso-escolar/

3. Catarina Says:
Abril 26, 2007 at 10:23 am

E deixem-me acrescentar o mobilíário que parece ter sido concebido por sádicos, de forma a que nem um aluno possa estar correctamente sentado. Que mal tinham as velhas «carteiras»? O tampo inclinado permitia escrever e ler de costas direitas, para o que contribuía também o desenho do assento e das costas da cadeira e o facto de estes se encontrarem ligados à mesa. Tinham um apoio para os pés que permitia uma posição confortável e saudável. Tinham um espaço para arrumos debaixo do tampo, o que evitava mochilas espalhadas pelos corredores entre as mesas. Seria por isso que havia muito menos miúdos a sofrer de dislexia? Digo isto porque li, recentemente, um estudo (confesso que não me lembro onde, mas o oftalmologista que segue a minha filha confirmou) que atribuía grande parte dos casos de dislexia a posturas incorrectas.

4. DA Says:

Abril 26, 2007 at 1:45 pm

“Para não falar de outros casos mais divertidos como aquela tipologia – se eu me esforçasse encontrava a designação, mas agora não me apetce – de origem nórdica, em que os blocos são todos envidraçados, com um mini-pátio interior e a possibilidade de acesso interior a todas as salas através das outras. Aqui pelas minhas bandas há várias, criadas na viragem dos anos 70 para os 80, antes da tipologia dos rectângulo de cimento armado.Numa onde leccionei há cerca de uma dúzia de anos até os encaixes para os skis mantiveram do plano original”

Refere-se a estas? http://www.eb23-paranhos.rcts.pt/

Eu estudei nesta, na altura Escola Preparatória, acabada de inaugurar e os meus filhos estudam nela agora, está num estado péssimo, nunca teve obras de manutenção, um dos Directores de Turma dos meus filhos designa os blocos de aulas de “aquários”.

5. Paulo Guinote Says:

Abril 26, 2007 at 4:17 pm

Exacto.

NA minha zona as primeiras funcionaram em finais dos anos 70. Em 1977/78, pelo menos lembro-me do meu antigo ciclo passar para esse tipo de instalações.

A última vez que leccionei numa tipologia dessas foi em 1995 na Preparatória (EB2) do Montijo e aquilo era épico no Inverno e no Verão.

6. Catarina Says:

Abril 27, 2007 at 10:14 am

Mas a «minha» é nova – pelo menos um dos blocos é novo – e sofre de todos esses males:

1. Está orientada Norte-Sul, pelo que metade das salas nunca recebe um raio de sol (e gela-se lá dentro no Inverno, o que não as faz frescas de Verão) e a outra metade é um forno em qualquer época do ano, bastando que esteja sol.
2. Em cada sala há uma «parede» inteiramente em vidro, geralmente sem cortinas, o que impede que grande parte dos alunos veja o que se escreve no quadro, que ainda é o único instrumento pedagógico que vamos tendo – mas quando tento usar um retroprojector ou um data-show, o resultado é pior ainda, pois é impossível escurecer as salas.
3. A escola foi construída por cima de uma nascente – imaginem que bem que se lá está!
4. Como está situada num declive acentuado, tem cinco pisos, ligados por quilómetros de corredores e dezenas de degraus, tão bem lançados que os alunos – já não falo dos professores – ficam sem fôlego ao subir um único lanço.
5. Do ginásio nem vale a pena falar – está fechado para evitar que um belo dia caia em cima de alguma turma incauta. As aulas de EF são dadas ao ar livre – e à lama livre – ou são teóricas, em salas «normais». Estava planeado um ginásio novo, mas com a nova vaga de economias que agora grassa ficou para as calendas gregas…
6. Apesar disto, nós, os professores, consideramos que é uma escola com condições acima da média – temos sala de trabalho para os professores, com cinco computadores com ligação à rede e Internet sem fios em toda a escola; refeitório com cozinheira (e não entregue a uma empresa como é a maioria); um bom anfiteatro; espaços verdes; uma boa biblioteca (virada a sul, claro, a perfeição não existe!); duas salas multimédia… enfim, todo o conforto moderno.

7. DA Says:

Abril 27, 2007 at 1:43 pm

A minha está em péssimo estado, de resto foi notícia recentemente por causa disso, a Biblioteca é minúscula:

http://www.rtp.pt/index.php?article=278210&visual=16&rss=0

http://jn.sapo.pt/2007/04/14/porto/secundaria_garcia_orta_precisa_obras.html

Mas como somos seguidores de Maria de Lurdes Rodrigues, e inspirados naquela sua fabulosa entrevista ao Correio da Manhã, já pusemos mãos à obra!!!!

http://www.esec-garcia-orta.rcts.pt/fotos_10_I.html


in http://educar.wordpress.com/2007/04/25/da-ma-arquitectura-como-causa-do-insucesso-escolar/

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Problemas deste género são os problemas gerais da construção em Portugal: Não há dinheiro? Então começa por poupar no projecto! Pega-se num projecto e cola-se naquele sítio; Ou então o clássico: "conheço um desenhador que faz isso bem..." O mesmo se podia dizer de edifícios de bombeiros, esquadras de polícia, secretarias públicas, etc. Mais ironico ainda seria pegar em exemplos de Escolas/Faculdades de Arquitectura!

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